Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 159

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 sorrateiros, fugi de galinhas impiedosas e até me desembaracei de uma teia de aranha – bradejou orgulhosa. Sentiu um frio na barriga, talvez provocado pelo excesso de olhos em sua direção. Cada façanha ganhava uma comemoração e a Colmeia tremia. As mais jovens usavam as mandíbulas para expressar orgulho; as adultas agitavam as asas rapidamente; as veteranas, companheiras de ofício de Ziigh, batiam as seis patas em solidariedade. – Mas hoje foi o fim da picada – continuou – Fui abençoada nesta manhã, localizei um jardim repleto de Jasmim. Vocês precisavam estar lá, aquelas cores, aquele cheiro! E nenhum predador por perto. NENHUM! – Ziigh ressaltou – Peguei o máximo de pólen possível, quase não conseguia voar. Vocês tinham que estar lá, irmãs. Os cinco olhos da número 18 brilharam. Em dois ou três dias ela mudaria de ciclo, deixaria a enfadonha tarefa de guarda e finalmente se tornaria uma coletora. Para ela, qualquer informação sobre a vida lá fora era, portanto, fundamental. – Você não tem pólen agora – desafiou Zobzig. Dizem que ela é a quarta n° 7.619 seguida a ter esse temperamento tempestuoso. – Não tenho, Zobzig, e sabe por quê? Porque um gigante, uma fêmea, pelo que pude ver, me acertou com sua bochecha!!! Um longo zumbido coletivo ecoou pela colmeia, fazendo vibrar o mel fresco nos favos. Os dois pares de asas de cada abelha presente naquela assembleia agitaram-se incessantemente. – Com a bochecha, irmãs! Todas nós sabemos da arrogância dos gigantes, só que essa fêmea superou todas as lendas que ouvi. Sequer pediu desculpas. Ela caminhava indiferente a tudo, desatenta, como se fosse a rainha da Colmeia. Ela deveria ter saído do meu caminho, ela não carregava nada nas mãos. Já eu, tinha um verdadeiro tesouro, faríamos um mel incrível com aquele pólen. – Pois é, só que você não tem pólen agora! – retrucou novamente Zobzig. – Deixa ela falar! – protestou a número 18 – E então, irmã, o que aconteceu? – Obrigada, 18. Irmãs, juro pela nossa monarca, fiz o possível para não perder o pólen quando me colidi com aquela perigosa bochecha. Mas fiquei enganchada e a gigante me atacou com suas mãos. Enormes mãos. Não caí no chão, mas nosso tesouro se perdeu. Muitos “Zs” ecoaram pela Colmeia, representando uma tristeza coletiva. – A gigante gritou muito alto, um som horrível. Eu recuperei meu voo, sem o pólen e com uma dor no abdômen. Fugi e, quando me senti segura, olhei para trás: aquela predadora voraz estava com as mãos na bochecha e expelia muito líquido pelos olhos. Suponho que seja um comportamento típico dos gigantes quando querem vingança. [156]