Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 158

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Leonardo Vinícius Jorge Mairiporã/SP Ziigh, de nº 6.674 O voo era estranho, meio em zigue-zague, meio para baixo e para cima. A essa distância já dava para ver a Colmeia de abelhas africanas, pendurada no vigésimo sétimo galho de uma árvore de quarenta e nove anos. Ziigh, de nº 6.674, passou pelas defensoras sem sequer cumprimentá-las, tamanha sua indignação. A vigia nº 2.986 ameaçou barrá-la, a capitã nº 15.875 apenas balançou a cabeça negativamente e permitiu sua entrada. Suas irmãs, suas milhares de irmãs, trabalhavam incessantemente lá no interior do reino, cada uma cumprindo rigorosamente a tarefa atribuída. Zeeerbn, nº 9.005, liderava as unidades de resfriamento dos alvéolos; Zxittx, nº 99, recebia o pólen coletado e orientava suas unidades na forma de desidratação; e a jovem Zuiwtip, nº 1.022, produzia geleia real com a energia de quem nasceu há menos de uma semana. Ziigh não estava interessada em nada daquilo. Seu mau humor era grande e uma leve dor no abdômen a incomodava de um jeito que até o maravilhoso som do zumbido de dentro da Colmeia a irritava. E olha que ela adorava aquela música. Tentou gritar uma, duas, três, quatro vezes, sem qualquer sucesso. “Eu serei ouvida”, bufou, “pelo Sagrado Mel, eu serei ouvida”. – Você aí, inútil nº Tanto Faz, venha aqui – Ziigh exigiu, apontando três perninhas para um zangão desatento. – Meu nome é zurerC e meu número é 43 – resmungou o jovem macho. – Tanto faz. Pegue outros 10 inúteis iguais a você e avisem que estou convocando uma reunião de emergência. 43 obedeceu, acionou alguns zangões ociosos, então cada um tomou uma direção no interior da colmeia para anunciar o comunicado da nº 6.674. Em apenas oito segundos, a multidão de abelhas se reuniu ao redor de Ziigh, numa organização fractal sonora e odorífera. – Irmãs! – esbravejou Ziigh – Passei por um absurdo agora há pouco. Desde que nascemos somos alertadas sobre o desprezo dos gigantes, mas constatei na prática o desrespeito que sofremos. Um longo ruído ecoou naquela região da Colmeia, alguns gritos de apoio e muitos pedidos para a oradora falar mais alto. – Não sou nenhuma novata, todas vocês sabem – continuou a nº 6.674 – Nesses meus quatro bem vividos dias como coletora, despistei pássaros [155]