LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Novamente muitos “Zs”, desta vez num tom diferente, que expressavam
preocupação.
– Enfim, cheguei até vocês o mais rápido possível para apresentar esse
relatório, apesar de estar um pouco machucada.
Milhares de asas se movimentaram como forma de congratulação à número
6.674. Milhares. Menos as da número 18. Enquanto as irmãs zumbiam em
comemoração, Zmerw não tirava os olhos da oradora, no entanto a outrora
admiração dera lugar à preocupação. Enquanto a Colmeia vibrava com a
aventura narrada, a nº 18 notou que Ziigh parecia mais fragilizada que o normal,
caminhava insegura e tinha expressões de dor.
Seu pequeno cérebro, então, repassou algumas das falas da corajosa abelha:
“...fiquei enganchada...”, “...recuperei meu voo com uma dor no abdômen...”,
“...apresentar esse relatório, apesar de estar machucada...”. Suas asas, então,
congelaram, e as antenas caíram vagarosamente. Despertou do transe com a fala
da heroína.
– Então, minhas irmãs futuras coletoras, muita atenção quando estiverem lá
fora. Todo aquele pólen lindo se perdeu por causa de uma giganta distraída. Eu
me distraí também, é verdade, mas é porque estava embriagada com aquele
perfume maravilh–...
– Seu ferrão! – interrompeu a nº 18, já não suportando mais tanta agonia –
Seu ferrão, minha irmã...
Um silêncio tomou a Colmeia. Nenhuma patinha se mexeu, as incontáveis
asas paralisadas. Todos os olhos apontados para Ziigh, que somente agora notou
o ferimento no abdômen. Onde antes havia seu ferrão só restaram nervos
expostos e órgãos dilacerados. Só agora, somente agora, veio a dor fantasma
naquele espaço vazio.
As abelhas, ainda em silêncio, assistiram à coletora tombar de lado e se
encolher, uma perninha por vez perdendo o movimento. Nenhum zumbido
coletivo. Nada. Nenhum som. A Colmeia estava tão quieta que as mais próximas
puderam ouvir, antes do fim, a nº 6.674 lamentar ter perdido aquele pólen
maravilhoso.
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