LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
laço em cima? Eu não sabia, acho que sabia, mas fingia não saber para escutar o
agregado, que tinha o que falar, porém não tinha mais tinta no bico da pena. Os
pássaros arrevoavam. Pássaros de arribação na goiabeira no fundo do quintal da
casa velha. Leonor nos olhando no fundo do quintal e o meu medo por olhos
negros se estenderam das histórias do agregado para aquele ponto de ônibus,
quando eu conheci Cristina. Que me olhava de longe e aguardava por alguém
que a amasse como ela merecia. Mas eu não merecia tal felicidade, eu não
merecia sequer estar ali sentado como se eu não tivesse casa para morar. Talvez
não tivesse. A vida é assim mesma. Dá para uns, tira de outros e acaba não
dando nada para ninguém. É o jogo da roleta. Qual é o número a escolher? Qual
é o seu destino hoje? Sorte ou azar? Joga no sete vermelho, pode ser que você
ganhe uma bolada e mereça uma viagem ao Japão. Por que Japão? A casa era
velha, muito velha. Os rebocos já não se aguentavam em si. A pintura
desbotada. Tábuas do assoalho rangendo. No porão, a voz de Leonor se faz
rouca, se faz fraca, se faz sumida. A casa velha me assombrava com as histórias
do agregado, que, na verdade, só queria comer pastel de carne feito pela minha
mãe e ali ficar, adormecido, adormecendo, até Leonor o convidar para uma valsa
que só o agregado saberia dançar.
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