Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 138

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Joedyr Bellas São Gonçalo/RJ Pastel de Carne A casa era velha. Uma casa velha onde eu fui me criando. Eu e meus irmãos. Éramos em quatro os irmãos. Somando mais mãe, pai e um agregado, que passou por lá, pediu um pastel com carne e foi ficando, passamos a sete. E o agregado foi ficando. Ficando por ficar. Não tinha com quem conversar, não tinha onde se encostar, não tinha nem mais tinta no tinteiro. Explico. Dizia-se escritor e contava histórias. Sabia de muita coisa. Sabia do mundo, sabia da vida, sabia do alheio, sabia das costureiras e do corte e costura. Falava de uma tal de Leonor. Lindíssima, segundo ele. Linda de fechar comércio, de parar o trânsito. Eram lugares comuns que ele ia escrevendo com as palavras ditas na oralidade de ter o que dizer, mas não conseguia mais colocar nada no papel e isso o deixava meio vazio, meio com o olhar em gotas de chuva bem fina, garoa. Era um velho simpático e Leonor naquela noite usava um longo chique com uma fenda que tirava o sopro de vida dos homens e eles ficavam a vagar. Pediam cachaça e se embriagavam querendo que Leonor olhasse para eles e ela olhava para todos com o mesmo amor nos olhos que sabiam convidar, no entanto se escondiam por trás de um negro par de olhos envoltos em chama, em brasa, em água gelada, por trás das brumas que o agregado jurava saber a senha, mas não se atrevia a falar, tinha medo de ser rejeitado, tinha medo de ser aceito e ser feliz. Não sabia ser feliz. Tentara, jurava ele. Tentara de todas as maneiras. Mas era um medo inexplicável, era o medo de poder ser aceito pela vida e ele só queria andar pelo mundo, só queria caminhar. Não queria laços nem embrulho para presente. Sabe aquele embrulho todo perfumado com uma fita rosa e um [135]