LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Joedyr Bellas
São Gonçalo/RJ
Pastel de Carne
A casa era velha.
Uma casa velha onde eu fui me criando. Eu e meus irmãos. Éramos em
quatro os irmãos. Somando mais mãe, pai e um agregado, que passou por lá,
pediu um pastel com carne e foi ficando, passamos a sete.
E o agregado foi ficando.
Ficando por ficar.
Não tinha com quem conversar, não tinha onde se encostar, não tinha nem
mais tinta no tinteiro.
Explico.
Dizia-se escritor e contava histórias. Sabia de muita coisa. Sabia do mundo,
sabia da vida, sabia do alheio, sabia das costureiras e do corte e costura. Falava
de uma tal de Leonor. Lindíssima, segundo ele. Linda de fechar comércio, de
parar o trânsito. Eram lugares comuns que ele ia escrevendo com as palavras
ditas na oralidade de ter o que dizer, mas não conseguia mais colocar nada no
papel e isso o deixava meio vazio, meio com o olhar em gotas de chuva bem fina,
garoa. Era um velho simpático e Leonor naquela noite usava um longo chique
com uma fenda que tirava o sopro de vida dos homens e eles ficavam a vagar.
Pediam cachaça e se embriagavam querendo que Leonor olhasse para eles e ela
olhava para todos com o mesmo amor nos olhos que sabiam convidar, no entanto
se escondiam por trás de um negro par de olhos envoltos em chama, em brasa,
em água gelada, por trás das brumas que o agregado jurava saber a senha, mas
não se atrevia a falar, tinha medo de ser rejeitado, tinha medo de ser aceito e ser
feliz. Não sabia ser feliz. Tentara, jurava ele. Tentara de todas as maneiras. Mas
era um medo inexplicável, era o medo de poder ser aceito pela vida e ele só
queria andar pelo mundo, só queria caminhar. Não queria laços nem embrulho
para presente. Sabe aquele embrulho todo perfumado com uma fita rosa e um
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