Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 125

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Guaçirana. Delirava sob o encanto e a meiguice da sinfonia magistral dos pássaros nativos... Muitas vezes, em brincadeiras ingênuas e infantis com a sua melhor amiguinha por entre os lírios do campo em clareiras abertas, não mediam esforços para o despretensioso desafio de subir pelos ramos das árvores e de lá das copas bem altas, se doarem a verdadeira cantarola enquanto ensaiavam se divertindo chamar pelo nome da virgem donzela; já, por outro lado, os pássaros reverberavam os belos dotes afinados de canção silvestre, exalando o cheiro selvagem de seus perfumes naturais e tecendo a renda para matizar um puro algodão. Ela, a doce Guaçirana, de olhos rutilantes e ouvidos aguçados, que nem rumores suspeitos poderiam quebrar o sincronismo com a mãe natureza a que o sol caprichava sem perturbar-se. Ela se investia como sempre numa verdadeira guerreira, como tal e corajosa intimidando até os maus espíritos das matas. Tal qual tece na memória os fios alvos de cabelos que um dia hão de se transformar assim como o branco das areias que beiram o mar; as vezes, nos olhos deixavam transluzir o azul das águas revoltas e perenes das mais recônditas profundezas do oceano. Adornos como Arcos, flechas e tacapes – armas beligerantes – cocais e penugens extraídos da fauna silvestre daquelas matas cobriam-lhe todo o corpo matizado como flocos de algodão. A bela Guaçirana tinha um olhar tão rápido, volátil, como num piscar de olhos e o mais sutil dos gestos já por vezes tolhido de um coraçãozinho tão virgem como era o da encantadora indiazinha Guaçirana. De atitudes marcadas pela constante impetuosidade de seu herdado gênio de guerreira instintivamente sempre pronta para seus inimigos e vencer. Assim quando impunha a desferir suas flechas certeiras, gotas de sangue cintilavam borbulhantes na face moribunda de seus oponentes. E, subitamente, no ímpeto de suas andanças embrenhada nas matas, se viu em certo momento cortejada por um formoso jovem guerreiro nunca visto por ali antes. De repente, teve a formosa indiazinha o inevitável e instintivo gesto de defesa típico de quem é incivilizado e genuinamente adotado pela selva, repousando imediatamente a mão firme sobre a cruz do seu inseparável punhal; mas logo sem demora mudou de atitude subitamente por um discreto sorriso como de quem estava já completamente interessada no jovem rapaz a sua frente, estático e também [122]