LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
calejadas de videogame e celular, mas não deixou as bolhas d’água atrapalharem
o plano.
Uma felicidade indescritível o fez sorrir alucinadamente quando a pá chegou
no objetivo. Tal qual uma criança em um dia de natal, abriu o caixão do pai,
esperando que ele levantasse e lhe desse um grande abraço, dizendo que estava
com saudades e amanhã ririam de tudo isso com uma bela Coca gelada no café
da manhã. Uma história para a vida toda!
O abraço não aconteceu.
O luar destacava a brancura da carne que estava iniciando o processo de
putrefação. O rapaz, em uma mistura de decepção com cansaço, caiu de joelhos
e depois abraçou o pai com uma força descomunal. Ouviu até o resmungo de um
osso! Ainda podia sentir o cheiro da colônia barata que o progenitor passava nos
dias em que não tomava banho.
Passou a mão no cabelo, nas mãos e nos ombros do falecido. Começou a
despi-lo e com as unhas ruídas pela ansiedade tirava delicadamente a pele do
corpo do pai. Tomava todo cuidado para preservar cada centímetro do tecido
epitelial, a parte mais difícil foi a área circundante das unhas, mas, graças a
Deus, tinha conseguido arrancar tudo de modo exímio. Em respeito ao velho,
colocou a roupa do morto onde ela pertencia, fechou o caixão e o deixou debaixo
daquele monte de terra.
O rapaz se despiu e vestiu a pele do pai.
Saindo do cemitério, olhou para trás mais uma vez, rezou um pai nosso e
seguiu rumo aos próximos capítulos da sina tétrica.
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