Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 120

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 calejadas de videogame e celular, mas não deixou as bolhas d’água atrapalharem o plano. Uma felicidade indescritível o fez sorrir alucinadamente quando a pá chegou no objetivo. Tal qual uma criança em um dia de natal, abriu o caixão do pai, esperando que ele levantasse e lhe desse um grande abraço, dizendo que estava com saudades e amanhã ririam de tudo isso com uma bela Coca gelada no café da manhã. Uma história para a vida toda! O abraço não aconteceu. O luar destacava a brancura da carne que estava iniciando o processo de putrefação. O rapaz, em uma mistura de decepção com cansaço, caiu de joelhos e depois abraçou o pai com uma força descomunal. Ouviu até o resmungo de um osso! Ainda podia sentir o cheiro da colônia barata que o progenitor passava nos dias em que não tomava banho. Passou a mão no cabelo, nas mãos e nos ombros do falecido. Começou a despi-lo e com as unhas ruídas pela ansiedade tirava delicadamente a pele do corpo do pai. Tomava todo cuidado para preservar cada centímetro do tecido epitelial, a parte mais difícil foi a área circundante das unhas, mas, graças a Deus, tinha conseguido arrancar tudo de modo exímio. Em respeito ao velho, colocou a roupa do morto onde ela pertencia, fechou o caixão e o deixou debaixo daquele monte de terra. O rapaz se despiu e vestiu a pele do pai. Saindo do cemitério, olhou para trás mais uma vez, rezou um pai nosso e seguiu rumo aos próximos capítulos da sina tétrica. [117]