LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Atônito, o adolescente se descontrola, começa a correr compulsivamente por
todos os lados da sala branca e cúbica, agarrando os ombros das pessoas e
gritando:
- Meu pai tá vivo, olha, olha! - sacudia com força para olharem direito,
precisavam olhar direito!
Ninguém via nada, apenas uma carne fria deitada.
A mãe do adolescente lívida, estática, desacreditando na cena, sem apoiar
ou desapoiar o filho. A tia, diferente da irmã, com um pé na loucura e outro na
insensatez, sem diploma, sem receita e sem vergonha, agarra a mão do rapaz
por trás e desce goela abaixo duas pílulas de Diazepam.
Ao garoto, só restou a tontura e o chão.
Quando acordou, o pai já havia sido enterrado. Convicto do que vira, pegou
a pá escondido e foi ao cemitério para desenterrar o pai. Os passos eram largos e
obstinados, entre um pensamento e outro, visualizava os vermes sedentos pela
refeição fresca e macia que o pai proporcionaria. E a cada vez que a visão
aumentava, mais os passos se apressavam, até virar em uma corrida contra a
natureza.
Morava em cidade pequena e religiosa, todos tinham a convicção de que o
cemitério era um local sagrado e jamais seria profanado. Então, não havia
segurança nem nada que impedisse a entrada, só uns bichos sem-vergonha e, de
acordo com a crença privativa de cada um, almas ou ossos.
O frontispício fora esquecido pelo esquecimento, o muro descascado
sintetizava um presságio do futuro tanto para os seres móveis quanto para os
condôminos. Por um segundo, o rapaz refletiu acerca do nome da necrópole:
Cemitério da Boa Esperança. Seria um nome dado por ironia ou alguma pessoa
extremamente depressiva pedindo socorro? Fosse o quê fosse, naquele
momento, era o sentimento que melhor descrevia o fator de impulso dos passos
incisivos daquele jovem.
Os galhos das árvores secas tentavam agarrar o blusão do rapaz porque
estavam desejosas de sentir uma quentura que não fosse a do sol e nem das
lágrimas das histórias perdidas. Ao redor, as lembranças deixadas em cima dos
túmulos revelavam um misto de sentimentos resistentes à morbidez. Dentre
todas as recordações, a que se destacava era uma grande televisão vermelha de
tubo e com botões pretos, com fitinhas coloridas de Nossa Senhora nas antenas,
em cima do túmulo de uma criança. Ao redor dela, bonecas riscadas com
canetinha, enroupadas com o mesmo vestido quadriculado rosa e branco,
tomavam despretensiosas um eterno chá da tarde.
Apreensivo, dirigiu-se até a lápide do pai, aquela foto definitivamente não
fazia jus ao porte atlético do velho. Tirou o blusão de moletom e começou a
escavar, não tinha prática de mexer com a pá, vez que, as mãos do jovem eram
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