LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Iris Franco
Diadema/SP
Eviterno
Obviamente, não se conformava com a única certeza que todo ser vivo tem.
Apesar disso, ele tinha visto, avisado, mas ninguém acreditou na verdade
descortinada e retransmitidas pela fenda sonora.
Bala.
Quando criança, a bala era sinônimo de alegria pois, entre ele e a mão que
lhe ofertava o produto açucarado havia sempre uma doce ligação: uma festa de
aniversário, uma oferta de paz após ficar cinco minutos sem falar ou, algo mais
corriqueiro, como a falta de troco do mercado. Contudo, detestava quando a
língua tinha que desgrudar do céu da boca a substância pastosamente babada.
Igual um trem descarrilhado, sem rumo ou respeito por quem estava
barrando o destino, uma bala de chumbo granulada de pólvora atingiu em cheio
o coração do pai e ricocheteou no dele e no de sua mãe.
Uma bala. Um assaltante. Um pai.
No somatório matemático, o resultado foi um gosto metálico embebido com
o soco da realidade que jamais sairia do paladar. As balas não tinham mais o
mesmo sabor, o porvir não tinha mais a mesma cor e, a partir de então, os
joelhos começaram a ser a cabeça e a cabeça os pés.
No velório, entre a cantoria apaixonada dos parentes evangélicos e a
indignação da outra metade católica, cabisbaixo, foi se aproximando da grande
porta de madeira com cheiro de flores velhas, a qual tinha testemunhado tantas
vezes a mesma situação que se tornou indiferente a dor alheia. Como tinha
inveja daquela porta, tudo que gostaria era não sentir, porque aquilo era demais
para a ossatura de 1,73.
O sapatênis furado levava o rapaz até o ataúde de cor mogno que seria a
futura porta de entrada da nova casa do pai, o lugar para contar as confissões
sem ouvir um ralho, como se tivesse uma vida perfeita, sem objeções ou
julgamentos. Um nada como resposta de todas as inquietações e erros da vida. O
corpo tremia e o suor descia pela testa, a pele foi invadida por algo desconhecido
pela palheta de cores, quando finalmente a coragem lhe abriu os olhos, viu o
rosto do pai.
Inchado, amarelo e com a feição serena.
A vontade de chorar só não era maior do que a de sair correndo.
Subitamente, o pai abre os olhos e pisca para ele.
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