LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
— Claro que não! — Seu cotovelo acerta de leve minha costela. — É a
primeira vez que cuido de alguém que tenha relação com parques, mas até que é
divertido.
— Cuida? — Curvo minha cabeça.
Sua única resposta é um sorriso contido, antes que eu possa questioná-la a
roda gigante ruge, olho sua estrutura tentando desvencilhar-se do que lhe
obstrui e a questão dos parques retorna a minha mente.
Havia algo com o meu pai, se me lembro bem, em relação aos parques, a
roda gigante... Não recordo se ele era alguém proibitivo, mas consigo ouvir o
“Não” dele, consigo ver sua roupa de mecânico, seu chapéu azul desbotado, até
posso vê-lo com as mãos na cabeça, lágrimas escorrendo de seus olhos, ele
gritando “Não, não, não”...
— Então? — Percebo que ela está falando comigo, seus olhos fixos em mim.
— Sabe o que eu acho, Ivy? — Disfarço participar da conversa.
Ela carrega o sobrolho, inclino-me para beijá-la na bochecha; estamos no
nosso quarto encontro, quero que o ato aparente gentileza e não desejo, estou
começando a gostar dela, mas ainda não entendo porque todos nossos encontros
acontecem em parques de diversão.
— Ainda bem. — Ela sorri tímida e beija-me de leve nos lábios. — Meu pai
vai adorar te conhecer, não vejo a hora de sairmos daqui.
Ela já havia comentado sobre o pai, falado que ele mora, se não me engano,
do lado oposto ao da cidade esbranquiçada, depois do mar, na direção em que
agora relâmpagos se escondem em nuvens escuras. Virando-me consigo ver o
local escuro daqui da baia.
— O que foi? — Ela também se vira, as pernas chutando o vazio a frente.
— Você disse morar ali, né? — Viro-me para ela.
— Não nas nuvens — ela segura o riso — depois delas, não é muito diferente
daqui, só que somos mais... — seu dedo toca o lábio inferior. — Divertidos!
A monstra de aço protesta, um balanço para trás, outro para frente.
— Parece que eles arrumaram. — Posso ver que seus olhos estão fixos lá
embaixo, onde dois homens, vestidos de um branco imaculado, reajustam os
metais, não havia percebido a aproximação de ambos.
— Já era hora. — Comento e percebo que os homens me fitam.
A roda gigante se move. Meus olhos não se desviam dos rapazes caminhando
tranquilos para os portões da cidade. Isso de alguma forma me faz pensar no que
me distanciou de parques. Por que eu não podia entrar neles? Talvez fosse esse
perigo iminente, esse barulho das engrenagens e o ferro dos assentos roçando
nos grandes parafusos que nos seguram. Meu pai não gostava de me levar nesse
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