LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Guilherme Alaor da Silva
Brasília (São Sebastião/DF)
Roda Gigante
Eu nunca fui uma criança de parque de diversão, sabe como são? Aquelas
crianças que correm para lá e cá, que pedem por cachorro-quente enquanto
apontam um algodão-doce colorido. Daquelas que se aproximam devagarinho por
trás dos adultos nas tendas de jogos de azar e observam, sem entender o que
acontece; em outro instante estão correndo em direção a uma estrutura que
forneça frio na barriga. Acabei crescendo assim, sem parques.
— Você vai adorar a roda gigante. — Escuto minha acompanhante falando.
— Não tenho certeza. — Replico.
— Ah, não seja bobo, você vai adorar sim! — Apesar do seu entusiasmo eu
só consigo assentir.
Aqui de cima da roda, ao lado da garota mais bonita que já vi, pergunto-me
o porquê de não ter sido uma criança de parques de diversão. Olhando mais
adiante, enquanto o monstro de metal põe-se a girar, vejo luzes de uma cidade
branca como nuvens escondida atrás de um grande portão de ferro.
— Estou com um frio na barriga.
— É normal, mesmo não sendo sua primeira vez. — Seu sorriso é largo o
suficiente para que eu possa ver seus caninos afiados.
— Mas é a minha primeira vez.
A enorme roda range com o esforço e então estaciona com um solavanco,
como se algum metal obstruísse seu movimento.
— Você está bem? — A sobrancelha da garota se ergue.
Olho para baixo, vejo os regos feitos pela gigante de ferro na terra. Pelo
número de marcas uma do lado da outra parece que foi movida pelo menos
quatro vezes antes de encaixá-la perfeitamente.
— Sim — me ajusto na poltrona — estou.
Daqui de cima a coisa toda não me parece assustadora, os metais
enferrujados, o tamanho da estrutura, o movimento repetitivo, então o que me
impedia de encarrar esses parques na infância? Minha acompanhante rir e escuto
sua voz:
— E com medo? — As duas sobrancelhas se erguem.
— Não. — Respondo com o meu melhor sorriso aliviado. — E você?
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