LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
mais o mesmo, o filho havia assumido os negócios do vendedor, ‘e talvez o filho
deste assuma futuramente’, pensou ele, ‘cidades do interior...’ Incluí-o um
refrigerante enlatado nas compras, o Sol estava implacável, iria enfrentar uma
pequena caminhada até a casa de Amanda, mas na grande cidade, que tudo
parece longe, acostumou-se com as comodidades de um veículo próprio.
“Ai, vingança ridícula! Por que não comprei uma água?” Carlos, bastante
suado, avistou a casa daquela que ele desprezou no passado por pura
inexperiência de vida. Mas uns passos com os olhos temerosos, e uma batida
clássica de três toques na porta.
— Ah, oi?! Sou um antigo amigo da Amanda, Carlos, poderia chamá-la, por
favor?
— Olha, moço... A família dela mora agora em outra cidade, bem longe
daqui. Claro, isso há 17 anos.
— Entendi... Poxa vida...!
— Mas a Amanda não foi com eles, ela ainda mora na rua das flores.
— Muito obrigado, senhora! Irei até lá agora mesmo. Ela se casou?
— Nem casou, nem namorou, nem nada.
— Tá, obrigado.
“Na entrada da rua das flores havia uma floricultura, entrei e comprei um
buquê de rosas vermelhas para o amor, misturei com brancas como sinal de paz,
ou amizade, tanto faz. Queria que houvesse uma que simbolizasse o perdão, mas
não havia. Cada passo que me aproximava dela, dos meus olhos corriam as
lágrimas da dor de tudo aquilo que eu não fui, de tudo aquilo que eu poderia ter
sido. Mas qual humano adulto não tem dívidas com o passado. Qual já não
chorou pelos erros cometidos, daquilo que não poderia ter dito? Passei pelo
portão e a vi sentada, estava vestida de branco, olhava e sorria para mim como
se estivesse vendo um anjo que eu nunca fui. A abracei ainda em prantos. Dela
só havia sorrisos, como se estivesse esperando por mim por todos esses anos.
Após o longo abraço, ela, agora com roupas coloridas como amava, foi levada por
uma leve brisa de vento, e eu pus as flores sobre o seu túmulo.” Na identificação
da sepultura, ‘Amada e dedicada filha. 1982-1998’.
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