Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 105

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 pequena cidade do interior. Ao lembrar da cidade que passou toda a sua infância e parte da adolescência, desligou o chuveiro. Com um semblante que alternava em seriedade e tristeza, enrolou-se na toalha de banho e caminhou com passos inseguros e pés molhados até o seu quarto. Carlos não gostava de lembranças. Pareciam sempre melancólicas e cheias de arrependimentos. As suas tinham a capacidade de lhe desanimar em qualquer momento sob variadas situações. Era uma luta constante, um gasto energético em sua cabeça intenso com uma fuga infrutífera. Mas agora, talvez a mistura das emoções com o esgotamento da força corporal tenha lhe dado coragem para uma tentativa de reconciliação, uma bandeira de paz, com aquilo que mais lhe doía, um amor não correspondido. Decidiu trocar o documentário chato por um resgate ao que perdeu em seu passado. Abriu seu armário três portas e pegou algumas peças de roupa e a lançou sobre a cama. Apanhou sua mochila empoeirada sobre o armário, aquele velho sacudir de poeira, e amontoou suas vestis dentro. Sentou-se na beirada da cama e relembrou dos momentos com Amanda. Ele nunca a amou, mas se arrependeu das fugas sempre que ela o vinha procurar. Estava muito apaixonada e até o forçava a ter relações, lhe fazendo agora ainda ter mais pena dela. Eram muitos jovens, pensavam mais em si, assim enxergavam o mundo. Quantas vezes ela passou em sua rua apenas por uma cristalina esperança em vê-lo? Imaginou quantas noites ela deveria ter passado em claro, sofrendo por ele. Chamando o seu nome. Ouvindo sua voz e vendo sua imagem em quase tudo que lhe cercava. “Ai, fui um idiota mirim! Como pude desprezar o amor puro de uma princesa?!” O táxi buzinou em sua porta, o deixaria na rodoviária, nada de pegar o metrô ou ônibus. O astro-rei não demoraria a mostrar sua coroa. A noite passou rápida, quase não percebeu o seu transcorrer. Apressou-se, pegou a mochila, e as chaves sobre a mesinha da sala, olhou por uma última vez para trás antes de fechar a porta de entrada. Um calafrio percorreu seu corpo, não sabia o que iria encontrar, tudo poderia se tornar uma péssima ideia rapidamente. A viagem durou poucas horas, mesmo assim dormiu em cada minuto. O som constante e pesado do motor do ônibus funcionava para o sono melhor do que qualquer ‘boa noite cinderela’. Ele acordou com as pessoas em fila no corredor da poderosa Mercedes-Benz, pegou sua mochila e caminhou vagarosamente até à porta. “Meu Deus! Viajar no tempo deve ser assim, cansaço e perplexidade...” Carlos tinha o mapa da cidade em sua cabeça, girou nos calcanhares e mirou uma antiga mercearia. Sempre via coisas gostosas naquele lugar que não podia comprar na sua infância. Foi impossível não ir até lá comprar uma bobagem como vingança, para se sentir ‘por cima da carne-seca’. Porém o dono não era [102]