Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 104

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Guará Sorocaba/SP Pretérito imperfeito “Hoje tem festa!” Era dia de sair com os ‘Friends’. O decorrer do semana havia sido tenso em seu emprego arranjado por desespero. Não são todos os seres vivos que fazem o que gostam, muito menos ele. E após abandonar os documentos, a maioria sem as assinaturas, na sua nomeada gaveta esquerda, olhou o relógio de pulso que marcava o seu atraso de quase dez minutos, um suspiro de insatisfação e o tchau para o chefe com um olhar de vingança... Ele não sabia o motivo de assim fazer, mas quando percebia já havia feito, e ‘voilà’, já estava do lado de fora da empresa, sentindo o ar quente da rua em seu rosto pálido pelo frio do ar condicionado. Sentia agora até o seu caminhar pesado e desajeitado de quem ficou horas sentado. Ao menos não precisou desviar dos outros carros estacionados, pôde ir direto ao seu. Abriu a porta e lhe pareceu que havia ali um protótipo do inferno de tão quente que estava o seu interior. Sob a máxima velocidade, com seu Gol 2001, que a caótica grande cidade podia conceder, Carlos começou a desesperar-se ao imaginar que perderia a saída mais esperada da semana com o infeliz ponteiro marcando duas horas no transito. A imaginação tomava conta da sua mente cansada. Uma ponta de sorriso anunciava uma fantasia sexual com uma linda garota da balada que ele iria perder com toda certeza. Uma buzina o despertou e ele acelerou seu veículo por desesperadores 13 metros. De fato, Carlos não conseguiu ir ao ‘Happy Hour’, tudo o que preferiu fazer foi jogar-se sobre o tapete em sua sala de estar. Precisaria descansar antes de tomar banho e esquentar a comida que estava na geladeira, seria ambos de rápida execução, mas não conseguia erguer nenhuma falange. “Que fim de semana detestável!” Após um cochilo, finalmente ele ergueu-se do tapete sonolento como se fosse o próprio pôr do sol. Se arrependeu de ter dormido antes do banho. Era madrugada e poderia não voltar mais ao seu sono, pesadelo de qualquer um quando o corpo reclama cansaço e a cabeça parece uma festa de crianças. “Terei que assistir um documentário chato. Ao menos irei me convencer de que não estou jogando o dinheiro fora com essa tevê por assinatura.” O vapor da água que caía do chuveiro o alegrou. Ficou ali como se estivesse numa cachoeira, porém imaginando o que iria comer. Podia sentir o gosto do macarrão com manteiga e queijo ralado, prato comido desde quando saiu da [101]