LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
tipo de diversão, disso eu me lembro bem, ele odiava, ou temia. Porém certa vez
ele levou, quando foi isso? Quando foi a última vez que o vi?
— Alô, mundo chamando. — As íris claras da garota me observam, uma
espécie de fogo dança lá no fundo. — Você foi mais inquisitivo nos primeiros dias.
— Ela bufa.
— Inquisitivo? — Fito-a, posso ver como seu rosto se desenha, seu corpo,
tudo nela é quase angelical, é tão cintilante que esqueço a escuridão que nos
cerca. — Perdão, estava pensando no meu pai.
— De novo isso? — Não lembro de já ter comentando sobre o meu pai. —
Você sabe que ele está em um lugar pior. — Seu braço rechonchudo captura o
meu e encosta junto ao seu corpo quente, só então me dou conta do frio que
sinto. — E nós devemos ficar juntos.
Minhas memórias parecem distantes, sinto que fogem de mim. A roda
esperneia, levando minha mente ao passado, o que são todos esses ferros
entulhados que vejo? Quem está entre eles? O calor da garota é convidativo,
escapo do passado e sinto o movimento da roda gigante, em resposta ela grunhi.
— Você tem razão, desculpa.
— Tudo bem, bobinho.
Aproximo-me mais da garota. A roda gigante, mais uma vez, emite outro
barulho, não dou bola. Quando estamos no ponto mais alto escuto um rugido da
estrutura, sinto que estou onde deveria estar.
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