LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
povo que daria extrema valoração à escrita e que surgiria logo em sequência: os
gregos.
Os helênicos que cuidaria da escrita não apenas como registro de fatos
históricos, de assentamento de preceitos religiosos ou de códigos legais, usou-a
com extrema maestria para a averbação de questionamentos, de análise, de
epifania, de descobertas, enfim daquilo que chamamos de filosofia, e que teve o
seu encetamento através do estudioso Tales de Mileto, que suscitou provocações
como “todas as coisas são feitas de água”, assertiva aparentemente simples
como essa que o filósofo Bertrand Russel apontou como “E assim começam a
filosofia e a ciência” (História do pensamento ocidental – Wisdom of the West,
1959, London, MacDonald).
Os gregos, aliás, usaram e abusaram da palavra e das letras, começando
por Homero – que acadêmicos ainda julgam como um múltiplo, ou seja,
houveram vários Homeros, não um único – e por Sócrates, Platão, Aristóteles e
uma infinidade de pensadores, cujo pensamento e trabalho ainda constituem
todo o alicerce da sabedoria (olha o “wisdom” de Russell) ocidental e que esse
conjunto de pensamentos multiscientes não teria repercussão alguma nos dias de
hoje não fosse o uso bem cuidado da letra. Até Sócrates, talvez o maior expoente
dentre os filósofos atenienses, mas que não escrevia, não teria a sua sapiência
reverberada não fosse a presteza e a dedicação do seu discípulo e bom escritor
Platão.
Babilônia passou; a Grécia iluminada passou; outras civilizações se
passaram e vieram os romanos com o seu poderio econômico e bélico.
Dominaram quase tudo na parte civilizada do ocidente, impondo a sua vontade e
a sua cultura. Não obstante a cultura romana ter deixado o espólio literário de
figuras de peso como Sêneca, Epíteto, Marco Aurélio; o brilho das orações de
Cícero; a fabulação de Petrônio, enfim levando-se em consideração que o império
latino prevaleceu e predominou a ferro e fogo, a oferenda cultural dos filhos de
Rômulo e Remo não chegou a 1/10 da epistemologia difundida pelos helênicos,
que valorizaram os conceitos democráticos em quase todo o período de apogeu,
até mesmo durante o regime dos macedônios Felipe II e Alexandre.
Veio o ocaso de Roma; a invasão de parte da Europa por bárbaros de todos
os rincões, e adveio as trevas, período como ficou rotulado o que chamamos de
Idade Média, onde é fato comprovado a ausência pura e simples de civilização, e,
não por coincidência, uma lacuna considerável na área literária e artística, lacuna
visível e profunda, por mais de sete séculos, até a oclusão da passagem de
Constantinopla (importante rota comercial ocidente-oriente) pelos turcos
otomanos, e o consequente advento das grandes navegações. Recorrendo a
Bertrand Russell, na obra ibidem, “Socialmente a estrutura feudal medieval ficou
instável, com uma poderosa classe de mercadores, que se uniu aos soberanos
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