Revista LiteraLivre 14ª edição | Page 98

LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019 contra os barões indisciplinados”. Esse forte abalo na estrutura medieval, alicerçada em baronatos, trouxe de volta as letras ao povo, através da divulgação do Latim Vulgar, com surgimento de obras de expoentes das letras da época como Dante, Petrarca, Bocácio, Rabelais, e como consequência, uma explosão de cultura sem precedentes mediante o período do Renascimento, que desaguou no florescimento das artes e da ciência com Copérnico, Descartes, Newton e outros. Todavia, tudo ainda era muito controlado pela Igreja e pelo Estado, até chegar o Iluminismo e desbancar de vez na Revolução Francesa, que, muito mais que uma insurreição, tornou-se um marco divisor de eras: o mundo passou de “Moderno”, em 1789, para “Contemporâneo”, e nada mais foi o mesmo, pois o grande fundamento alicerçado pelos gregos lá atrás veio à tona em toda a sua magnitude, e permanece vigorando até hoje, que é a nossa boa e velha Democracia. Em suma, revivendo um pouco a viagem das letras pelo tempo, volto ao “problema” a que me refiro no início do segundo parágrafo desse texto e que prometo “aprofundar”, e que talvez o termo correto seria “alertar”, é que o século XXI projeta alterações profundas em toda a estratificação da sociedade moderna. Uma delas seria qual o papel das letras e dos literatos dentro de uma doutrina “neo-contemporânea” que se pauta apenas no trinômio especulação financeira- armamentismo-inteligência artificial. Será que nessa nebulosa perspectiva que se avizinha no âmbito de todo o planeta haveria espaço para a paz, para a boa- vontade, para o congraçamento humano, para a reflexão religiosa, para o deleite da arte, para a sublimação de se fazer literatura de verdade? Acho que nós, literatos em especial, que temos a sensibilidade à flor da pele, devemos mais do que nunca ficar antenados e cientes do que acontece ao nosso redor, e ter a certeza absoluta de qual será o nosso utilíssimo papel dentro desse universo estranho que se avoluma diante de nós. Quando falo que literatura é o testamento de um povo, da existência dele, do legado que essa civilização deixará para os nossos descendentes e para o futuro da nossa espécie, reforço a assertiva com mais uma questão: alguém conhece civilização alguma que surgiu, floresceu, morreu e deixou uma herança positiva para a posteridade sem se embasar de cultura, arte e de conhecimento escrito? 95