LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
E eu teria que deixar de ir ao clube hoje porque ela chamou até meus pais
para virem jantar. Inventava coisas absurdas para tentar me prender em casa.
Mas não irá adiantar, eu ficarei em casa hoje, mas amanhã eu sairei, depois de
amanhã também:
- Por que tenho que ficar o tempo todo aqui se não tenho sossego? É todo
dia a mesma ladainha; que você não me dá atenção, que deve estar saindo com
outra, que não gosta dos próprios filhos e por aí vai.
Eu não aguentava mais isso. Chegava cansado do trabalho e não tinha
sequer o direito de ter paz.
Durante o jantar, aquele constrangimento geral. Mara tentando mostrar à
família que tudo estava bem, em perfeita harmonia, mas o silêncio de Célio a
contradizia o tempo todo.
Quando todos foram embora, começaram mais uma das costumeiras brigas.
Mara argumentava:
- Nossa família não precisava saber que tudo está péssimo entre nós, você
poderia ter disfarçado melhor...
E por outro lado, Célio dizia:
- Estou farto dessa vida de aparências, preciso sair mais, ter vida social, não
gosto de ficar preso em casa.
E assim foi a longa discussão, que não obteve resultado algum.
Célio estava disposto a abandonar a mulher, não suportava mais aquela
vida, queria a sua liberdade de volta. Arquitetava sobre como dizer isso à mulher.
Tinha pena por causa dos filhos, mas do jeito que estava não poderia continuar.
Em meio a tanto desgosto e desespero, Célio teve uma ideia e foi falar com
um amigo, pedir ajuda. Reconhecia que não era um favor muito comum,
tampouco fácil de fazer, mas para que servem os amigos, afinal.
- Cara, mas o que você me pede é um absurdo, como é que eu posso
simplesmente chegar na sua casa e beijar a sua mulher?
- Mas não precisa beijar de verdade, é só simular uma cena de bastante
intimidade até que eu os flagre.
Depois de muita insistência, Célio obteve êxito. O amigo dispôs-se a ajudá-lo
e assim foi que, no dia seguinte, saindo de casa para trabalhar, voltou pouco
tempo depois, pois “esqueceu” um documento muito importante em cima da
mesa. Ao abrir a porta subitamente, deparou-se com a “cena”; sua esposa aos
beijos com seu melhor amigo.
Não pensou duas vezes, com o “susto” que tomou pela traição de ambas as
partes, desferiu vários socos contra o “amante” da sua esposa, virou para esta e
gritou:
- Sua vadia.
Bateu a porta da sala, não deixando que Mara sequer se defendesse. Foi
embora e nunca mais voltou.
Estava livre, com dignidade e cheio de razão.
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