Revista LiteraLivre 14ª edição | Page 57

LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019 O tio pigarreou, e aproveitou-se da sua pouca audição para ganhar tempo, embora já estivesse feito a leitura labial a respeito do questionamento do sobrinho: - O que você disse, meu fi?! - Por que você matou a Chica? – respondeu Pedrinho buscando um sentido para tal circunstância. - A galinha?! É a galinha...– limpando a garganta – ô meu fi, eu sinto muito! Eu também tô sentido. Era a galinha mais véa do nosso galinheiro. Não sei quem teria corage de fazer mal a pobrezinha. As palavras do tio causaram transformação instantânea no semblante do menino, fazendo a fúria perder lugar para a confusão. - O causo é – o tio prosseguiu dando um tom de suspense na voz – que tava eu, caminhando perto do galinheiro, quando avistei a defunta estirada no chão e do ladinho dela tava essa faca aqui, ó. Corri meia légua pra tentar pegar o assassino, mas não vi nem rastro do dito cujo. “Que história mais sem pé nem cabeça!” Pensou o menino. Não se lembrava de já ter ouvido, ou ao menos conhecesse alguém que ouvira a história de um homicida de galinhas. Mas o fato é que Pedrinho parou para pensar e lembrou que Chica andava um tanto estranha nos dois últimos dias. Não parecia dar a mesma atenção às prosas do amigo como em outrora. Estava comendo menos do que o comum, adotara uma suspeita preferência pelos cantos do galinheiro, sempre a margem das companheiras de estadia. No que se refere a isso, o menino suspeitava que a amiga fosse mais uma vítima do tão falado na escola: o bullying, visto a notoriedade do sobrepeso da galinha, sem contar aquelas penas de um dourado que certamente causaria inveja a qualquer uma de suas camaradas. Talvez as outras se sentissem incomodadas, entrando em um consenso para deixar a pobre gorduchinha à parte. Nesse contexto, a história que o tio acabara de contar esclarecia toda a estranheza no comportamento de Chica. Era essa coisa de pressentimento que a mamãe sempre falava. Claro! A pobre Chica estava pressentido que algo de ruim lhe aconteceria. – Pobre Chica! - choramingou Pedrinho, enxugando uma lágrima. – Oh, meu menino, se aperreie não, ela cumpriu a sentença, né mesmo?! Foi uma galinha de grande valia! Penso que vai tá assegurada seja lá pr’onde ela tenha ido, fi! Agora preciso levar ela. Sua tia tem de prerpará o armoço. Tio Bené apressou-se na tentativa de sair das vistas do sobrinho, na esperança de por um fim na situação, mas o menino pôs-se a sua frente. No fundo, no fundo, ele sabia que não conseguiria escapar da pergunta que viria em seguida. Sentindo o suor escorrer pelas costeletas possuía uma intuitiva certeza de que não saberia como se safar. Agora lascou-se. Estava tudo perdido. O menino iria descobrir que ele era o assassino, que a esposa, tia Margarida, era 54