LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
O tio pigarreou, e aproveitou-se da sua pouca audição para ganhar tempo,
embora já estivesse feito a leitura labial a respeito do questionamento do
sobrinho:
- O que você disse, meu fi?!
- Por que você matou a Chica? – respondeu Pedrinho buscando um sentido
para tal circunstância.
- A galinha?! É a galinha...– limpando a garganta – ô meu fi, eu sinto muito!
Eu também tô sentido. Era a galinha mais véa do nosso galinheiro. Não sei quem
teria corage de fazer mal a pobrezinha.
As palavras do tio causaram transformação instantânea no semblante do
menino, fazendo a fúria perder lugar para a confusão.
- O causo é – o tio prosseguiu dando um tom de suspense na voz – que tava
eu, caminhando perto do galinheiro, quando avistei a defunta estirada no chão e
do ladinho dela tava essa faca aqui, ó. Corri meia légua pra tentar pegar o
assassino, mas não vi nem rastro do dito cujo.
“Que história mais sem pé nem cabeça!” Pensou o menino. Não se lembrava
de já ter ouvido, ou ao menos conhecesse alguém que ouvira a história de um
homicida de galinhas. Mas o fato é que Pedrinho parou para pensar e lembrou
que Chica andava um tanto estranha nos dois últimos dias. Não parecia dar a
mesma atenção às prosas do amigo como em outrora. Estava comendo menos do
que o comum, adotara uma suspeita preferência pelos cantos do galinheiro,
sempre a margem das companheiras de estadia. No que se refere a isso, o
menino suspeitava que a amiga fosse mais uma vítima do tão falado na escola: o
bullying, visto a notoriedade do sobrepeso da galinha, sem contar aquelas penas
de um dourado que certamente causaria inveja a qualquer uma de suas
camaradas. Talvez as outras se sentissem incomodadas, entrando em um
consenso para deixar a pobre gorduchinha à parte. Nesse contexto, a história que
o tio acabara de contar esclarecia toda a estranheza no comportamento de Chica.
Era essa coisa de pressentimento que a mamãe sempre falava. Claro! A pobre
Chica estava pressentido que algo de ruim lhe aconteceria.
– Pobre Chica! - choramingou Pedrinho, enxugando uma lágrima.
– Oh, meu menino, se aperreie não, ela cumpriu a sentença, né mesmo?! Foi
uma galinha de grande valia! Penso que vai tá assegurada seja lá pr’onde ela
tenha ido, fi! Agora preciso levar ela. Sua tia tem de prerpará o armoço.
Tio Bené apressou-se na tentativa de sair das vistas do sobrinho, na
esperança de por um fim na situação, mas o menino pôs-se a sua frente. No
fundo, no fundo, ele sabia que não conseguiria escapar da pergunta que viria em
seguida. Sentindo o suor escorrer pelas costeletas possuía uma intuitiva certeza
de que não saberia como se safar. Agora lascou-se. Estava tudo perdido. O
menino iria descobrir que ele era o assassino, que a esposa, tia Margarida, era
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