LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
sempre insistia para ele optar pela jaca mole, embora preferisse a jaca dura. De
todas as novidades, nenhuma o fascinara tanto quanto a vida no galinheiro.
No início permanecia à distância, apenas observava, hesitando o contato
direto com as galinhas. Com o passar do tempo foi se sentindo mais seguro para
entrar naquele habitat. Até que um dia, lá dentro, ouviu algo que lhe parecia
familiar. A galinha cacarejou outra vez, e outra vez. O menino fechou os olhos
espremendo-se, fazendo uma trajetória na sua memória auditiva. Como aquela
sonoridade lhe parecia familiar. A galinha cacarejou novamente e ele lembrou.
Dona Francisca. Algo naquele cacarejo o remetia a voz da sua vizinha. Os
moradores mais antigos do bairro diziam que a mulher possuía uma voz estranha
de nascença. Outros diziam que a voz dela teria ficado assim, depois que o
marido contara que tinha acertado os números da loteria. A vizinhança toda
ouviu os gritos de felicidade dela, que se estenderam, modificando bruscamente
a entonação de sua voz, depois que o marido a informara ter perdido o bilhete
premiado. Ainda havia a versão da espinha de peixe, sustentando a tese que a
voz teria modificado após Francisca ter se entalado.
Eram tantas especulações que Pedrinho não sabia em qual acreditar, muito
embora tivesse uma leve inclinação pela versão da espinha do peixe, imaginando
a confusão formada, uma vez que, supostamente, o episódio tenha ocorrido em
um jantar de gala. O fato é que a voz da vizinha era estranha mesmo.
Lembrando-se da mulher, Pedrinho batizou a galinha de Chica, em homenagem a
dona Francisca. Os dias que procederam ao batismo da estimada ave, serviram
para firmar uma amizade genuína entre o menino e a galinha.
Certa manhã, o menino deu de cara com o tio Bené, que vinha da direção do
galinheiro. Ambos pararam. Pedrinho, estatelado, com as bolas dos olhos
parecendo querer saltar das órbitas oculares, viu o que o homem trazia consigo.
O tio munia-se de uma faca suja de um caldo enegrecido em uma das mãos, e na
outra, uma galinha, ou ao menos os restos mortais dela. Segurava a galinha
pelas asas, o pescoço, na maioria das vezes hiperativo, agora molenga,
pendulava sobre o corpo sem vida. O homem olhou de um lado a outro,
buscando algum apoio para a situação instaurada.
- Chi... Chica?! – perguntou o menino quase que sem voz.
Era ela sim. Jamais Pedrinho deixaria de reconhecer a amiga que ouviu as
mais atrozes das suas intimidades. Como quando sentiu vontade de passar cola
na cadeira da professora que o chamara a atenção só porque contava ao colega
as aventuras do final de semana na praia, no meio da aula de matemática.
Somando-se o fato de Chica ser a mais gorda do galinheiro, não tinha como
haver confusão. Era ela sim!
- Mas por que ela? O que ela te fez? – indagou o garoto, com lágrimas nos
olhos.
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