LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
sua cúmplice e o pior, pretendiam servir a galinha no almoço. – Pra onde vai
levá-la? – Pedro Henrique questionou agora um pouco mais conformado.
Tio Bené não sabia se respirava aliviado pelo sobrinho não ter notado os
indícios que incriminavam o casal, ou se sentia aflição por não saber responder a
pergunta que acabara de lhe flechar. “Se mataram, mataram alguém. Se
mataram alguém é porque teve morte. Se teve morte e morreram, tem que
enterrar, ué.” Pensou o tio, achando uma resposta
– Há de se providenciar o enterro da galinha, fi.
Quando terminou de falar, esgotou-se. Jamais em todas as quase seis
décadas de vida tinham exigido dele tamanho raciocino lógico, em tão pouco
tempo. Apesar do esforço, pôde contemplar um sorriso de contentamento no
pequeno Pedrinho, como se a galinha fosse digna de tamanha honraria.
Certamente, aquela seria a primeira galinha a ser enterrada. Dando-se conta
disso, por um momento houve um ar de lisonjeio da parte do tio Bené, afinal de
contas era nas terras dele que aquele feito inédito aconteceria.
–Agora vá se ajeitiá que eu vou arranjar uma caixa que sirva de caixão pra
galinha Chica. Daqui a pouco tu me encontra lá perto do pé de acerola, atrás do
curral – o tio deu as coordenadas.
Após tanger o menino para dentro de casa, saboreou um pouco do alivio
momentâneo. Momentâneo mesmo, pois não sabia que rumo tomaria esse
acontecido. Ou melhor, até que ele sabia. “Vou ter que enterrar a diaba da
galinha” cochichou consigo mesmo. Não tinha escolha, já tinha chegado até ali,
teria que por um ponto final.
Meia hora depois estavam os dois no local marcado. O menino todo de preto,
como no único enterro que já assistira. Foi o da donzela, enamorada do mocinho
de um filme de faroeste que o papai assistiu. A cena que antecedeu o enterro foi
uma épica perseguição de cavalos que culminou com a morte da donzela. Aquela
cena foi reproduzida pelo menino durante algumas semanas, até que em uma
tarde, perdera o controle do seu mangalarga, a vassoura de casa, derrubando um
dos lustres favoritos da mamãe.
Tio Bené, suando feito um cuscuz, descansava sobre o cabo da pá usada
para abrir a cova. A galinha estava lacrada na caixa-caixão. Com pesar, o menino
se aproximou e pegou a caixa, depositando-a na cova rasa. Balbuciou meia dúzia
de palavras e foi-se embora do cemitério improvisado. O tio, grato pela rapidez
da cerimônia, apressou-se em tapar o buraco, afinal de contas não podia correr o
risco de alguém ver aquela cena. Se isso acontecesse, pensou em como
explicaria o enterro de uma galinha. Cansou de pensar e parou.
Na hora do almoço estavam todos na mesa. Papai, mamãe, tio Bené,
Pedrinho e alguns primos. Quando tia Margarida depositou sobre a mesa, a
panela com o ensopado de galinha, tio Bené sentiu um frio na espinhela. O
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