Revista LiteraLivre 14ª edição | Page 54

LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019 Aquele que diz “a gente se acostuma, mas não devia.” A gente não devia se acostumar a passar no centro do Recife e encontrar pessoas implorando por um prato de comida. A gente não devia se acostumar a ver crianças indo dormir com fome. Sei que neste gênero literário faz-se predominar a exposição de histórias do cotidiano e, talvez, ele não seja próprio para evidenciar um discurso de militância. Mas esta foi a melhor forma que encontrei de conversar com os amantes desses escritos sobre um dos muitos problemas sociais. A mulher com a filha no chão de uma metrópole em caos com seus estômagos vazios, no mesmo instante em que dezenas de pessoas comiam no shopping ou restaurantes próximos ao local, nos conta mais que uma história de duas pessoas famintas, conta a história de um país onde a desigualdade social é explícita e extrema, onde os residentes elevam seus respectivos narizes ao céu, ignorando ou tratando como normal e sem importância cenas absurdas como a relatada acima. Confesso que a menina em questão, parecia-se com minha irmã e, sim, talvez isso tenha mexido demais comigo. Voltando pra casa, vi-me num mar de desilusão, olhando para os rios que cortam a cidade, pela janela do “busão”. Talvez você, leitor, esteja mentalizando o seguinte pensamento: “ah, ele só ficou com pena porque a garotinha lembrava sua irmã”. Afirmo que sim! Ela lembrou minha irmã, a sua mãe lembrou minha mãe, a fome me lembrou das inúmeras mães e crianças que passam fome no Brasil e no mundo a fora. Aqueles pedestres que passavam indiferentes me lembraram da maldade humana. E todas as pessoas contidas neste texto, me lembram de mim: a dor das pessoas é minha dor, a fome das pessoas é minha fome, pois, afinal, somos todos um só. @escritorderua 51