LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Aquele que diz “a gente se acostuma, mas não devia.” A gente não devia se
acostumar a passar no centro do Recife e encontrar pessoas implorando por um
prato de comida. A gente não devia se acostumar a ver crianças indo dormir com
fome.
Sei que neste gênero literário faz-se predominar a exposição de histórias do
cotidiano e, talvez, ele não seja próprio para evidenciar um discurso de
militância. Mas esta foi a melhor forma que encontrei de conversar com os
amantes desses escritos sobre um dos muitos problemas sociais. A mulher com a
filha no chão de uma metrópole em caos com seus estômagos vazios, no mesmo
instante em que dezenas de pessoas comiam no shopping ou restaurantes
próximos ao local, nos conta mais que uma história de duas pessoas famintas,
conta a história de um país onde a desigualdade social é explícita e extrema,
onde os residentes elevam seus respectivos narizes ao céu, ignorando ou
tratando como normal e sem importância cenas absurdas como a relatada acima.
Confesso que a menina em questão, parecia-se com minha irmã e, sim,
talvez isso tenha mexido demais comigo. Voltando pra casa, vi-me num mar de
desilusão, olhando para os rios que cortam a cidade, pela janela do “busão”.
Talvez você, leitor, esteja mentalizando o seguinte pensamento: “ah, ele só ficou
com pena porque a garotinha lembrava sua irmã”. Afirmo que sim! Ela lembrou
minha irmã, a sua mãe lembrou minha mãe, a fome me lembrou das inúmeras
mães e crianças que passam fome no Brasil e no mundo a fora. Aqueles
pedestres que passavam indiferentes me lembraram da maldade humana. E
todas as pessoas contidas neste texto, me lembram de mim: a dor das pessoas é
minha dor, a fome das pessoas é minha fome, pois, afinal, somos todos um só.
@escritorderua
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