LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Chão de metrópole
Victor Santos
Já eram quase sete da noite e as ruas do Recife mostravam-se como o
estreito corredor urbano de pessoas que são. Todo tipo de gente andando por
todos os lados. Trabalhadores cansados do dia exaustivo de trabalho, corriam em
direção aos pontos de ônibus do Grande Recife ou aos seus carros. Os BRTs
lotados, as lâmpadas da cidade iluminando a movimentada Avenida Conde da
Boa Vista. Os alunos de uma das mais famosas faculdades particulares da região
metropolitana chegavam para mais uma noite de aula. Tudo normal. Até que,
entre os sons de buzinas, ouve-se uma voz desesperada: - Me dê uma ajuda, por
favor! - implorava a mulher vestida com peças sujas de roupas velhas, sentada
no chão, com uma menina magrinha nos braços.
Minha filha foi dormir com fome. Me ajuda. Me dá um trocado pra eu dar de
comer quando ela acordar. - gritava em desespero.
Caro leitor, estava eu andando pelas calçadas da avenida quando vi a cena.
De forma injustificável as pessoas apressadas corriam sem dar atenção.
Ignoravam a situação como se dissessem “não é comigo!”. Minha vontade era de
entrar em qualquer restaurante ou barzinho nas proximidades e levar uma
marmita para aquela mãe e sua filha. Porém meus bolsos estavam vazios, não
jazia em minhas vestes cinco centavos. Meu coração foi ao chão. Naquele
momento eu senti o mínimo que um ser humano deveria sentir pelo outro:
empatia. Enquanto muitos insistem em pensar que “não é comigo!”, eu falo em
voz alta e escrevo, para deixar eternizado na literatura: “É COMIGO SIM!”. É
comigo e também é com você.
“Mas se “tá” na rua é porque a mãe usa drogas, é porque não estudou, não
arrumou um emprego”. Os crentes fiéis da meritocracia repetem estas palavras e
propagam este pensamento dia após dia, colocando a fome da garotinha em
segundo plano. Como se as pessoas escolhessem ir morar nas ruas por puro
prazer. Como se passar dias sem comer fosse uma opção.
Entendo que, diante do cotidiano de um país que massacra a parte mais
pobre da população, é comum (mas não deveria) se acostumar com essas
situações. Quantas vezes nos param na rua pedindo um trocado? Quantas
viagens de ônibus fazemos todos os dias e nos deparamos com pedintes? E a
pobreza no sertão nordestino? Certa vez, uma senhorinha me parou na rua
pedindo para lhe comprar algo para comer. Nossos olhos se habituaram a ver
filmes parecidos com esses todos os dias. O que não percebemos é que nós não
somos meros espectadores dos dramas sociais, nós somos importantes
personagens. Todo mundo conhece aquele texto da Marina Colasanti, “né”?
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