Revista LiteraLivre 14ª edição | Page 170

LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019 Mesmo a contragosto, Lúcio se despediu do amigo desejando-lhe felicidades. A distância física interrompeu a convivência entre os amigos. Crescendo em sua carreira, Lúcio formou família, amealhando, cada vez mais, bens e propriedades. Eduardo, por sua vez, usufruía de um padrão de vida inesperado, divertindo-se como nunca, chegando a abandonar seus familiares, despreocupado com o futuro, compensando a privação sofrida durante a infância e adolescência. Os anos se passaram, e apesar de todos os cuidados, Lúcio contraiu uma doença que resultou num sério dano ao coração, exigindo um transplante o mais rápido possível. Com todo o seu patrimônio e influência, o máximo que conseguiu foi galgar algumas posições na lista de espera de transplante. Além disso, só podia rezar para que o milagre acontecesse. Depois de alguns meses de espera, recebeu a notícia de que poderia se submeter à cirurgia com órgão de doador compatível. Realizada a operação, Lúcio restabeleceu-se, levando uma vida quase normal. Quando, já idoso, Lúcio desencarnou, teve a oportunidade de reencontrar seu antigo amigo que já se achava há alguns anos no plano espiritual. -Oi Eduardo, como vai ? -Bem, e você, Lúcio ? -Acho que fiz grandes avanços em minha vida corpórea. Como foi a sua ? -Bom, levando em conta que após meu desencarne disponibilizei meus órgãos a várias pessoas, inclusive você, posso contabilizar essas boas ações a meu favor, não é ? -Então foi você que doou o coração? O que o matou ? -Um acidente automobilístico. Eu dirigia embriagado, pois era etílico dependente. -Que ironia. Se tivesse seguido meus conselhos à risca, não teria morrido, e eu não teria sido transplantado... -Não é bem assim, meu amigo. O que o levou a ter problemas no coração foi o seu apego a controlar e organizar a vida nos mínimos detalhes, a manter tudo sob "rédea curta", a evitar surpresas, contrariedades, sofrimentos e frustrações, a querer ser o "dono do seu mundo". A necessidade de um transplante fez com que a decisão mais importante de sua vida - continuar ou não vivo - dependesse de um fator externo - a existência de um doador compatível. Sua própria crença o deixou enfermo, pois a preocupação em evitar repetir erros e acertar sempre num futuro imprevisível era tamanha que,em vez de viver o presente plenamente, você apenas reproduzia o passado e antecipava o porvir. -Quer dizer que se você trilhasse pelo mesmo caminho teria problemas semelhantes ? -Certamente. Mas eu fui por outro lado. A convivência com meu pai alcoólatra deveria propiciar nossa reconciliação, pois era esse o objetivo de meu 167