LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Quando o corpo fala o espírito ouve ?
Ricardo Ryo Goto
São Paulo/SP
“Se, pois, a tua mão ou o teu pé te faz tropeçar, corta-o e lança-o para longe de
ti; é melhor para ti entrares na vida aleijado ou coxo do que seres lançado com
duas mãos ou dois pés no fogo eterno.” - Mateus-8,9.
"Quando o espírito falece, o corpo padece" - provérbio popular
Os dois eram muito amigos e planejaram re-encarnar numa mesma época,
decididos a resgatar dívidas contraídas ao longo de sua jornada de
aperfeiçoamento.
Obtido o consentimento para tal projeto, a um deles foi destinado nascer
numa família abastada, de grandes posses materiais e ao outro numa família
muito humilde e pobre.
Lúcio, cercado de fartos recursos e oportunidades, pôde se dedicar
tranquilamente aos estudos, à formação física e intelectual, chegando
rapidamente à condição de profissional gabaritado, com garantia de bons
empregos, segurança e bem-estar.
Já Eduardo, filho mais velho numa família de oito irmãos, concluiu com
dificuldade o segundo grau, tendo que ajudar no sustento da casa, já que o pai
era alcoólatra e nunca se estabilizava em emprego algum.
Quando ambos já passavam dos 25 anos, Eduardo se candidatou a uma
vaga na empresa em que Lúcio era já um diretor.
Depois de ser contratado, Eduardo, que começara como ajudante de
produção, chamou a atenção de Lúcio, como é costume ocorrer entre almas que
já conviveram em outras encarnações, mesmo que um véu de esquecimento
cobrisse suas experiências pregressas.
A simpatia entre ambos foi recíproca, e sempre que Lúcio podia, ia ter com
seu subordinado para com ele conversar.
Interessado no progresso de Eduardo, Lúcio aconselhava-o a retomar os
estudos, a não se deixar intimidar por sua origem humilde, a poupar sempre que
possível, a fazer os cursos de reciclagem que a empresa oferecia, a aproveitar as
chances de promoção e até mesmo oportunidades que surgissem em outras
empresas. Que zelasse pela sua saúde, não cometendo excessos, ou alimentando
vícios, pois era ela que garantiria que ele tivesse ânimo e disposição para o
trabalho. Quanto a constituir família, que esperasse juntar um bom "pé-de-meia"
antes de se casar e ter filhos.
Eduardo aceitava de bom-grado os conselhos de Lúcio, como se os
recebesse de um irmão mais velho, pois assim o considerava.
Desejoso de progredir profissionalmente, Eduardo voltou aos estudos e
aproveitou todas as chances disponíveis até que encontrou numa firma
concorrente a oportunidade de lograr êxito em sua carreira.
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