LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Continuo vagando pela casa, entro no meu quarto. Olho tudo com muita
calma. Ainda penso que tudo aqui me pertenceu um dia mas sei que nada disto é
meu. Fui feliz aqui. Sorri muitas vezes. Chorei tantas outras. Sofri pelos mais
diversos motivos. Comemorei muitas vitórias. Celebrei a vida, o amor, a alegria e
a felicidade. Lamentei perdas, me arrependi de erros cometidos, revi muitas
cenas da minha vida. Abraçada ao travesseiro fiz julgamentos equivocados e
outros ponderados e justos. Chorei lágrimas infinitas. Planejei dias melhores para
minha vida, adiei muitos projetos, reprogramei outros. Propus mudanças que me
poderiam fazer mais feliz. Sempre a felicidade. Sempre. Para mim e para as
pessoas queridas. Poucas coisas desejei mas persegui, incansavelmente, a
alegria e uma vida plena. Sem ambições desmedidas, consegui (quase) tudo que
quis.
Sinto uma gratidão imensa por aqueles que cruzaram o meu caminho. Pelo
bem
ou
pelo
mal
foram
grandes
mestres,
grandes
escolas,
fontes
de
aprendizagem e sabedoria, mesmo quando eu não conseguia entender muito
bem a situação vivida. Sinto profunda gratidão por ter tido os filhos que tive.
Lembro-me, com o coração apertado, de cada um deles. Nenhum amor se lhes
compara, nenhum outro. Lamento deixá-los. Cada um deles preencheu os meus
espaços internos e fizeram de mim um ser humano melhor. Muito melhor. No
quadro de avisos, dois recados. Deslizo carinhosamente meus dedos sobre as
fotos, os cartões “te amo” e as fotos das mãos em coração, I love you. Eu
também amo vocês. Para sempre, amarei.
Estou cansada, muito cansada. Não sei o que faço agora. Nenhuma vontade
de nada. Nenhuma expectativa. Acho que sinto sono. Olho ao redor: nada de
luzes brilhantes, escadarias azuis ou pessoas brancas e translúcidas...nada de
vozes chamando o meu nome, nada de cenários surreais. Ainda sou eu. Aqui.
Com muito sono. Muito cansaço. Não respiro mais e volto do profundo mergulho,
das águas calmas onde me encontro. Chego à superfície mas superfície não há...
E mesmo assim eu vou!
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