Revista LiteraLivre 14ª edição | Page 167

LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019 Olhando pra trás não levo comigo nenhum remorso, nenhum arrependimento, nada de ódio ou rancor. Algumas coisas poderiam ser feitas de outra maneira. Poderia ter me chateado menos, esperado menos das pessoas, criado pouca ou nenhuma expectativa, mas não deu... Devo ter comentado inverdades, contado mentirinhas, nem sempre um comportamento exemplar mas tive uma vida normal, com defeitos, com planos mal sucedidos e de tristezas também...muitas tristezas! Sobre a escrivaninha encontram-se os livros ainda por ler; caderninho de anotações, folhas soltas com recados, números de telefone. Olho tudo sem saudades. Sem apego. Não sinto medo. Não temo o depois. E a transferência de consciência será uma realidade ou não? Lembro-me do powa tibetano - tudo para voltar à terra pura, livre do sofrimento, das doenças dos problemas, das dores. Pergunto-me se serei merecedora de uma passagem leve e apaziguadora. Passagem para onde? Estarei mesmo saindo daqui? Estou mesmo indo embora? Para onde irei? Não sei ainda... O que sou eu agora? O que serei de hoje em diante? A impermanência, experimentada em muitas vidas, me diz que nada permanecerá igual por muito tempo. Tudo muda. Eu também estou mudando, passando de uma vida para outra vida? Levarei de mim tudo que vivenciei, vivi, experimentei? O que irá sobrar no final de tudo? Não posso acreditar que serei nada, nada! Vejo um filme em câmera lenta. Uma quantidade imensa de recordações, de saudades dos tempos passados, das pessoas, dos locais, dos acontecimentos, um turbilhão de sensações muito vivas, muito fortes porém efêmeras. A isto chamamos memória? Ou consciência? O que sobrará de mim quando desprovida do corpo físico, serei apenas a memória? Ou apenas o quê? Daqui onde estou, posso ser tudo que quero, posso me deslocar para onde desejo, tenho vontades e as realizo - só não sei se isto é real! Sinto-me flutuar e me vejo muito além do tempo e do espaço. Agora sou nuvem. 164