LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Olhando pra trás não levo comigo nenhum remorso, nenhum arrependimento,
nada de ódio ou rancor. Algumas coisas poderiam ser feitas de outra maneira.
Poderia ter me chateado menos, esperado menos das pessoas, criado pouca ou
nenhuma expectativa, mas não deu... Devo ter comentado inverdades, contado
mentirinhas, nem sempre um comportamento exemplar mas tive uma vida
normal, com defeitos, com planos mal sucedidos e de tristezas também...muitas
tristezas!
Sobre a escrivaninha encontram-se os livros ainda por ler; caderninho de
anotações, folhas soltas com recados, números de telefone. Olho tudo sem
saudades. Sem apego. Não sinto medo. Não temo o depois. E a transferência de
consciência será uma realidade ou não? Lembro-me do powa tibetano - tudo para
voltar à terra pura, livre do sofrimento, das doenças dos problemas, das dores.
Pergunto-me se serei merecedora de uma passagem leve e apaziguadora.
Passagem para onde? Estarei mesmo saindo daqui? Estou mesmo indo embora?
Para onde irei? Não sei ainda...
O que sou eu agora? O que serei de hoje em diante? A impermanência,
experimentada em muitas vidas, me diz que nada permanecerá igual por muito
tempo. Tudo muda. Eu também estou mudando, passando de uma vida para
outra vida? Levarei de mim tudo que vivenciei, vivi, experimentei? O que irá
sobrar no final de tudo? Não posso acreditar que serei nada, nada! Vejo um filme
em câmera lenta. Uma quantidade imensa de recordações, de saudades dos
tempos passados, das pessoas, dos locais, dos acontecimentos, um turbilhão de
sensações muito vivas, muito fortes porém efêmeras. A isto chamamos memória?
Ou consciência? O que sobrará de mim quando desprovida do corpo físico, serei
apenas a memória? Ou apenas o quê? Daqui onde estou, posso ser tudo que
quero, posso me deslocar para onde desejo, tenho vontades e as realizo - só não
sei se isto é real! Sinto-me flutuar e me vejo muito além do tempo e do espaço.
Agora sou nuvem.
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