Revista LiteraLivre 14ª edição | Page 166

LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019 fechada. Raios de sol atravessam as copas das árvores e me fazem pensar em fotografias. Linda luminosidade. Tantos tons de verde que me confundem. Tenho a impressão de que o céu aqui é verde também. Não ouço nenhum som. Imagens, apenas imagens. Vem-me a certeza de que sou árvore também. Abro gostosamente os braços; sou galhos imensos, troncos fortes, ramos, muitas folhas. Sou vegetação. Sim, isto mesmo, vegetação. Clorofila, muito verde, luzes, me sinto uma planta. Natureza, mãe terra, gaia, fertilidade, grandeza, isto é o que sou agora. Vejo uma casa bem no meio da floresta. É a minha casa. Em uma clareira. A garagem vazia. O jardim. Entro pela porta lateral, subo ao segundo andar e vou até a biblioteca. Minha escrivaninha, meio desarrumada. Procuro mas não consigo encontrar minha agenda. O que está acontecendo comigo? Estranho, não vejo ninguém, tudo muito calmo: os livros na estante, os porta-retratos com fotos da família, a antiga cômoda da minha avó. Abro as duas últimas gavetas; lá guardei caixas com fotos antigas, reveladas em papel fosco. Todas elas em cores e separadas em grandes envelopes pardos. Etiquetados por ocasiões especiais e/ou rotineiras. Abro os envelopes do meu casamento, o barrigão de grávida, aniversários dos filhos, natais, festinhas de escola; revejo a grande família feliz, reunida nas bodas dos meus pais, o beijo dos dois; vários envelopes com as viagens, os bailes de formatura, encontros de amigas, casamento dos filhos, foto com os netinhos e uns retratinhos 3x4 escondidos em um envelope menor – namoradinhos do tempo de colégio. Sorrio saudosa daqueles amores perdidos no tempo. Coloco as fotos, uma por uma em sequência e fico pensando em tudo que estou deixando ficar! Tudo que me fora tão caro, tão importante e que agora permanecerá naquela mesma gaveta. Longe de mim. Invade-me um sentimento de imensa gratidão. Reconheço a plenitude que me guiou os passos. No balanço das horas tive momentos bons, outros nem tão bons e alguns odiosos. Fui muito amada e amei muito também. Sinto-me orgulhosa por tudo que consegui em minha vida profissional. Procurei dividir, com os próximos a mim, tudo que poderia ser distribuído, repartido, compartilhado. 163