LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Qando eu Morri…
Rosângela Maluf
Nova Petrópolis/RS
Ontem, quando eu morri, era quarta feira, 19 de abril, dois dias depois do
meu aniversário de 50 anos. Não pensei que uma cirurgia tão simples pudesse
terminar numa parada cardíaca. Estou achando que me vou cedo demais, mas
não teve mesmo jeito. A moça de azul entrou na sala do CTI, verificou os fios,
suspirou profundamente, me olhou e apertou uma campainha que, imagino, deve
ter tocado na sala da enfermagem. Entraram, logo depois, três pessoas vestidas
de branco, um homem e duas mulheres. Apenas resmungavam. Quis ouvir o que
diziam mas só conseguia ouvir barulho de água, muita água, cachoeira, cascatas,
cataratas, ondas do mar, algo assim...
Pessoas começaram a chegar. Há muito entra e sai nesta sala de tratamento
intensivo. Muita gente, muito barulho. Estou quieta, não consigo me mover. Ouço
ao longe um rádio, uma partida de futebol talvez; na sala da enfermagem? A
esta hora? Pode ser. E agora? Por onde devo começar? Não respiro mais e nem
posso mais controlar minha ansiedade. Teoricamente, não posso me sentir
ansiosa. Sinto-me estranha, muito estranha e tenho tanto para resolver ainda
hoje! Quero sair daqui. Vou sair daqui.
O barulho das águas que ouvi ainda há pouco, era o mar. E é sobre ele que
me vejo agora. Já é dia claro. O céu está azul e faz um sol bonito. As ondas são
enormes, azuis ou verdes, não consigo definir muito bem. Estou acima delas,
como a bordo de um aeroplano, voo rasante. A praia está deserta. Flutuo sobre a
areia clara. Não vejo ninguém. Alguns pensamentos me assustam mas logo me
livro deles. Preciso aproveitar a sensação de ser água, eu sou o mar. Amplidão,
liberdade, calma e serenidade, isto é o que sinto. Agrada-me esta sensação
embrionária. Sim, estou no ventre da mãe. Amniótico.
Não consigo saber que horas são. O que eu deveria fazer agora? Árvores
imensas me impedem de continuar voando. Mergulho em uma mata densa,
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