LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Outra Canção Para Desiderata
Raimundo de Moraes
Oh carne, carne mía, mujer que amé y perdí,
a ti en esta hora húmeda, evoco y hago canto.
Neruda
Desiderata
abençoaram teu corpo no domingo
As abóbadas de pedra
imitavam a renda
do vestido azul
Agora, querida
és íntima de todas as ocultas sapiências
Desiderata
os campos estão lavrados em nome da fome
e há essa romaria
de brotos inertes
zumbindo afônicos sob a terra
Nada permanecerá
- o mundo corroendo-se de novíssimas vidas
e os homens correndo para vesti-las
Eu pensei que também tu fosses eterna
Lembro que nada exigias
e calculavas com a alegria sem risos
os passos lentos da Velha Senhora
Dizias: sou tão fraca... !
Eu falava: és tão forte!
E fingias ouvir
trancada no cimo
de torres inatingíveis
Miosótis cresciam em teu caminho, Desiderata
e quando colhidos por tuas mãos tornavam-se
“não-te-esqueças-de-de-mim”
Ah como esquecer esse profundo abandono
de não querer amar
porque o futuro já passou?
Desiderata
que bordava à tarde
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