LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Hoje,estes coitados são estorvos para a sociedade e até para as suas
famílias.
Triste paradoxo! Quando mais precisam de ajuda é que são mais
abandonados.
No momento da vida em que o corpo físico se encontra cambaleante, a
perspectiva de emprego decente não existe, os lapsos de memória são
frequentes, o sorriso é escondido por vergonha de mostrar a falta de dentes, o
simples ato de caminhar se torna cada vez mais lento pelo peso da idade, a
maioria dos amigos já não está mais presente e a família não os acalenta como
merecem, são atirados no calabouço social, abatidos como gado no matadouro
da insensibilidade humana.
Na falácia das autoridades tornam-se apenas personagens de discursos,
parte de estatísticas reais e de promessas irreais que jamais serão cumpridas.
Servem apenas para alimentar bravatas flamejantes daqueles que têm o poder e
oportunidades de melhorar a situação, mas falta-lhes interesse para fazer.
Vemos crescer diariamente a fila de miseráveis, injustiçados e abandonados
clamando por caridade, direitos, remédios, emprego e comida. Clamor inútil, pois
nada terão ou, se conseguirem, o será em quantidade exígua, muito aquém da
real necessidade.
Lamentável! É por demais lamentável e triste essa situação. Quanto mais
observamos, mais longe ficamos de enxergar alguma mudança. Resta-nos o
sentimento de tristeza por estes velhos. Incapazes que somos, assistimos
impassíveis a humanidade caminhar cada vez mais em busca de altas
tecnologias, enquanto desaprende de caminhar em direção ao próximo.
Sigo a minha vida, e encontro o mesmo rosto todos os dias, em todos os
cantos, em todas as direções, em todos os velhos. E um fator preocupante me
assola. . . Quando olho no espelho sinto que meu rosto está ficando cada vez
mais parecido com o velho que enxerguei naquela madrugada fria.
145