Revista LiteraLivre 14ª edição | Page 147

LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019 O Velho Waldir Capucci Jacareí/SP Eu o avistei logo nos primeiros sinais de luz, início do amanhecer. Fazia muito frio e notei que suas vestimentas estavam puídas, inclusive as luvas e o cachecol. Tratava-se de um senhor com idade próxima dos setenta anos; portanto, um velho, como apregoa a sociedade de forma geral. Observando seu fardamento deduzi que devia ser vigia de alguma obra ou prédio comercial, e tinha deixado seu trabalho após a jornada noturna, possivelmente cumprida ao relento. Contemplei seu rosto por poucos segundos e constatei que já o conhecia. Eu nunca estivera naquela cidade antes, mas já o tinha visto diversas vezes e em vários lugares diferentes. E continuo vendo o mesmo rosto, não que ele me persiga; apenas, é impossível não enxergá-lo. Eu o vejo no semblante dos vendedores de bilhetes, sorvetes ou doces, que vivem desses subempregos simplórios, amealhando míseros reais a cada dia labutado, e que mal servem para cobrir o custo de uma parca refeição. Também é marcante nos aposentados que fazem parte da paisagem das esquinas e praças públicas. Passam horas nos jogos de dominó, damas ou xadrez, ou então, conversando e relembrando o passado, tempo saudoso que não volta mais. Presente também nos senhores debruçados nos parapeitos das janelas ou sentados nas soleiras das portas, enquanto aguardam passar mais um dos últimos dias que lhes restam de vida. Mais latente e perceptível ainda na feição daqueles homens desditosos jogados à míngua, sentados em velhos bancos de madeira ou surradas cadeiras plásticas, aguardando por atendimento em condições humilhantes nas repartições públicas. Observá-los assim, em especial nas unidades de saúde, recebendo tratamento como se indigentes fossem, causa-me profunda dor pela total incapacidade de mudar a situação. 144