LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
O Velho
Waldir Capucci
Jacareí/SP
Eu o avistei logo nos primeiros sinais de luz, início do amanhecer. Fazia
muito frio e notei que suas vestimentas estavam puídas, inclusive as luvas e o
cachecol. Tratava-se de um senhor com idade próxima dos setenta anos;
portanto, um velho, como apregoa a sociedade de forma geral.
Observando seu fardamento deduzi que devia ser vigia de alguma obra ou
prédio comercial, e tinha deixado seu trabalho após a jornada noturna,
possivelmente cumprida ao relento. Contemplei seu rosto por poucos segundos e
constatei que já o conhecia. Eu nunca estivera naquela cidade antes, mas já o
tinha visto diversas vezes e em vários lugares diferentes. E continuo vendo o
mesmo rosto, não que ele me persiga; apenas, é impossível não enxergá-lo.
Eu o vejo no semblante dos vendedores de bilhetes, sorvetes ou doces,
que vivem desses subempregos simplórios, amealhando míseros reais a cada dia
labutado, e que mal servem para cobrir o custo de uma parca refeição.
Também é marcante nos aposentados que fazem parte da paisagem das
esquinas e praças públicas. Passam horas nos jogos de dominó, damas ou
xadrez, ou então, conversando e relembrando o passado, tempo saudoso que
não volta mais.
Presente também nos senhores debruçados nos parapeitos das janelas ou
sentados nas soleiras das portas, enquanto aguardam passar mais um dos
últimos dias que lhes restam de vida.
Mais latente e perceptível ainda na feição daqueles homens desditosos
jogados à míngua, sentados em velhos bancos de madeira ou surradas cadeiras
plásticas,
aguardando
por
atendimento
em
condições
humilhantes
nas
repartições públicas. Observá-los assim, em especial nas unidades de saúde,
recebendo tratamento como se indigentes fossem, causa-me profunda dor pela
total incapacidade de mudar a situação.
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