Revista LiteraLivre 14ª edição | Seite 145

LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019 Adentrei a residência arrepiado, a bexiga pressionou-me a esvaziar os joelhos enquanto um frio subia a espinha. Liguei uma lanterna a fitei o livro que reverberavam aquelas palavras penetrantes como uma agulha e então me sobreveio um repentino sono como se a vida estivesse desvaindo de mim. Adormeci recostando-me na parede repleta de bolor daquele lugar. Dos ladrilhos quebrados escoavam um filete de água que vinha do teto por uma infiltração por anos de acaso a fomentar o único ruído, ao lado de minha respiração, que cortasse o silêncio tenebroso do lugar. Tão logo as imagens se tornaram embaçadas não sabendo ver coisas ou se tratasse de um sonho quando ouvi passos dentro do lugar. Tentei remexer-me sem sucesso quando então veio um garoto correndo em minha direção. Inicialmente achei se tratar de um fantasma, mas suas feições suaves e serenas pareciam conter o temor que prenunciava ao dizer-me. — Venha! Levante-se, não quero ser um fantasma nesse lugar! — O que está acontecendo? — Indaguei perplexo ao garoto que me puxava pelo braço. — O vaso da morte, o homem mal que vive apenas para a morte quer acabar contigo! — Como assim? Não fiz nada! — Você é o garoto do sonho, você é a próxima vítima daquele o qual obra é apenas a destruição. O embaixador do inferno! Como assim? Me indaguei, como poderia eu ao buscar respostas acabar compelido pelo destino a concretizar profecias profanas dos que lá adormeceram? E se o destino controla nossa vontade? A contragosto me remexi ao contemplar aquele garoto que me fitava agora nervoso. Ao levantar-me fitei o corretor que se estendia tenebroso até a escada que descia ao primeiro andar, caminhei como embriagado pelo torpor de uma sonolência que me fazia presa quando por uma janela vi um homem de camisa branca com listras azuis marinho pegando um facão e com um sorriso sádico adentrar o recinto lá embaixo. Corri para o sentido oposto na tentativa de sair daquele lugar pelo telhado, mas tropecei numa cadeira que não havia visto o que deu tempo do homem com traços mongóis me alcançar. O homem estava com olhos vidrados e riu de prazer em ver-me vulnerável como uma gazela na savana, me pegou pelo pescoço apertando-o e empunhou a faca desferindo-a entre meu peito, no coração. — Consegui acabar contigo como eu queria! Essa é minha grande obra! Ao ouvir aquelas palavras acordei subitamente no lugar em que havia dormido. Perplexo ao perceber se tratar de um sonho levantei-me tonto e segui para o corredor tentando retirar-me quando pela janela vi o mesmo homem com a mesma roupa exatamente como no sonho. A estranha sensação de Déjà vu que me tomou em perplexidade não me deu chance para refletir, mas apenas tomar o 142