Revista LiteraLivre 14ª edição | Page 144

LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019 segui bravamente ao ponto sem nada encontrar quando então uma voz irrompeu o sinistro silêncio que impregnava de medo aquele lugar angustiante. — Você! O livro, veio encontrar o livro? Ao virar-me fitei um velho com longas barbas brancas a me indagar assustado e ao ver-me assentir com o rosto ficou perplexo. — Havia adormecido e no sonho vi um homem entregar-me este livro dizendo ser para você. — Repercutiu o homem e prosseguiu. —Acordei e achei que era apenas isso, um sonho, mas percebi que estava com o livro nas mãos. Sabe, dormimos para fugir dessa realidade cruel, mas de repente não vi diferenças entre sonhos e a realidade. O homem desembrulhou o livro quando vi a capa com o título em latim 'Libro Ad Somnium'. Então, tomado pela expectação nada consegui pronunciar ante as afirmações daquele homem, me levando apenas a me abaixar a pegar o livro de suas mãos com os lábios selados. Luzes trêmulas de uma fogueira me levaram a contemplar as letras do livro como se tivessem dançando de um lado a outro quando com certo esforço li as primeiras palavras daquele mítico livro o qual afirmava que veio de uma dimensão onde a barreira entre realidades e sonhos teria caído. Segundo o autor Ofir as vezes os sonhos ligam mundos diferentes ao nosso o qual a separação entre um e outro é apenas uma ilusão persistente assim como a ilusão entre passado, presente e futuro. Ao me retirar do lugar caminhei ansioso para desfolhar por completo o livro que detinha desenhos inóspitos e afirmava mesmo que o Manuscrito Voynich compilava a fauna desse mundo que era um sonho coletivo que existia há séculos. O acesso ao mítico sonho de séculos era por palavras cuja semântica não era capaz de revelar a origem, palavras que reverberavam memórias de algo nunca visto e assim por isso nunca lembrado, pois era algo inerente a uma dimensão adormecida como variação das coisas que nunca aconteceram em nosso universo. Durante todo percurso palavras daquele profano livro tomavam minha mente de modo que me senti tentado a ir até a famigerada mansão tentar proferi-las a fim de testar a veracidade delas como se palavras fossem capazes de alterar as vibrações entre mundos fazendo-os se tocarem. Ainda que não acreditassem em mágica a curiosidade era o que me movia e por ainda não estar saciada assim fiz quando a noite caíra sobre a cidade. Ao passar por um buraco na grade da propriedade notei que todos os sons que prenunciavam a noite cessaram, dos grilos aos sons de corujas como se o silêncio sepulcral fosse precursor de um luto da natureza ante a morte ou a passagem por entre mundos, caso fosse real. Mas o que era a morte senão o sonho definitivo, sonho para os bons e pesadelo para os maus como o psicopata que lá ceifava vidas inocentes. 141