LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
que o tempo do sono por isso, pois aquela dimensão independia do tempo
cronológico de nosso universo, possuindo um tempo próprio, um universo o qual
somente a combinação de memórias seriam a chave para acessar esses sonhos
durante a noite, sonhos em que algumas vezes são compartilhados não somente
num dado momento, mas em todos os tempos. Todavia dentre esses sonhos
havia um sonho secreto o qual a porta oculta nenhuma memória conhecida
levaria pois é o sonho dos mortos num tempo próprio, sejam dos mortos do
futuro que ainda nem nasceram ou mortos do passado distante. Como um limbo
embebido na letargia almas vagavam num único tempo, independente do tempo
em que vieram.
Aquilo me deixou perplexo por compreender possibilidades imprevisíveis caso
fosse verdade, mas ainda que questionasse concepções esotéricas aquilo nunca
havia antes ouvido falar na minha vida me levando a crer que não se tratava de
nenhum culto conhecido. Assim senti-me compelido a desbravar esse enigma ao
partir a procura do Libro Ad Somnium que segundo Anil nunca conseguiram
digitalizar e por isso apenas poderia ter o livro físico. Ao pedir a Anil por isto ele a
contragosto cedeu me oferecendo coordenadas onde poderia encontrar uma
réplica copiada a mão como no tempo dos copistas e escribas de séculos atrás
antes da invenção da impressa.
Durante o percurso recordei-me das lendas de um hotel de quinta o qual
haviam ocorrido desparecimentos na costa do Rio de Janeiro. Desaparecimentos
sob alegações similares de ocorrências e sonhos como precursores. O “Hotel
Esperança” encerrou as atividades após a última vítima lá desparecer ao procurar
um outro desaparecido, um garotinho. Doravante, durante o percurso pesquisei
sobre o suposto autor do livro chamado Heidi Ofir não encontrando informações
satisfatórias novamente como se o sujeito não existisse em nosso mundo.
Quando chego ao ponto em que tinha de soltar me dirigi seguindo as
coordenadas dadas por 'Anil' até um lugar onde outrora havia uma boate, mas
agora abandonada. Passei por entre mendigos daquele lugar degradado por uma
gestão governamental que havia provocado apenas crises e desigualdades. Fora
nesse momento em que uma mulher ao me fitar gargalhou e disse olhando em
meus olhos.
— Você está perseguindo suas próprias sombras vindouras!
Ignorei aquilo ainda que temerário e segui a diante passando por entre
cracudos que se esgueiravam como mortos-vivos esquálidos num estado de
torpor quase permanente como se estivessem em algum lugar entre a realidade
e os sonhos como escapismo das dores daquele mundo moralmente senil e
doentio. Ao adentrar ao segundo andar conforme informava o bilhete, temi por
minha vida achando se tratar de uma emboscada, mas intuído pela curiosidade
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