LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Quando o excesso de felicidade virou cansaço, o garoto pediu licença para
dormir.
Com um beijo na testa da avó, do vô e do pai, o garoto foi para o quarto
dos finais de semana.
Repentinamente, naquele estágio do sono em que não lembramos mais
como somos, o menino sentiu o monstro agarrar seu pé. O medo era maior que o
ar nos pulmões, não conseguia respirar. Lentamente, a língua do monstro foi
percorrendo todo o frágil corpo, as ventosas do músculo molenga faziam barulho
enquanto desgrudavam lentamente do tecido epitelial. Lágrimas silenciosas
escorriam do rosto da criança. O menino sentia os pelos do monstro peludo
roçarem pra frente e pra trás, enquanto as garras fincavam os braços pueris na
cama que rangia conforme a sofreguidão da angustia.
Mentalmente pedia para aquilo parar, mas o tempo e espaço haviam se
comprimido a tal ponto naquele quarto que quase não existia diferença entre o
começo e o fim.
Até que o monstro vira a criança meio de lado e diz:
— Boa noite filho, durma bem. — o pai se despedia com um beijo testa.
— Boa noite, te amo papai.
Limpando a mão, o pai desliga o interruptor e a infância do filho.
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