LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
que o fez ficar distante de tudo e de todos, mesmo que, forçosamente, com um
sorriso amarelado, fingisse ouvir o interlocutor. Todavia, sempre estava
resmungando com a dor, afinal, chegou em um ponto que só ela o entendia.
Talvez, devido a altura do castelo construído, ninguém conseguia ouvir que
havia um monstro perseguindo ele. Era um monstro grande, forte e peludo, com
garras asquerosas e uma língua que parecia feita por várias ventosas. Uma vez,
ele o desenhou para a mãe que apenas disse:
— Tá bom menino, tá bom….depois a gente conversa.— Após a frase de
pouca complexidade, se reclinou no sofá e foi ver o celular.
O filho esperou por um depois que nunca chegou.
E lá estava ele, novamente, encarando o sábado matinal, dia em que o tal
papel dizia que deveria ir com o pai. Com a voz rouca de tanto berrar sobre o
monstro, só restava abaixar a cabeça e esperar o fatídico momento em que o pai
chegaria.
Quando a campainha tocou, o garoto sentiu o sangue coagulado pelo
medo. A mãe, obviamente, oferecia o famoso café com leite paulistano para o ex-
marido, mesmo com vontade de mandar tomar outras coisas em outros lugares.
Entretanto, entre os olhares de raiva e saudades das intimidades na cama,
contou ao ex sobre o que o menino falava, do tal monstro na casa do pai. Após
uma breve risada de descrédito de ambos, o pai zeloso agachou e perguntou ao
filho:
— Filho, que história é esta de monstro?- O pai colocava as mãos no ombro
do menino e olhava firmemente nos olhos dele, demonstrando preocupação.
— Nada não pai. — respondia a criança com desânimo aterrador enquanto
rabiscava o chão com os pés.
O menino já tinha certeza, não adiantava falar, ninguém acreditaria.
Mais uma vez, seria um desperdício de ptialina.
Pra quê?
— Tá vendo — a mãe batia as mãos nas coxas roliças — este menino não
sabe o quê diz!
O menino cabisbaixo deu bênção para a mãe e saiu pelo mundo de mãos
dadas com o pai.
Chegando na casa paterna, o ar cheirava a avós e todo mundo sabe qual o
perfume desse ar: de carinho. O menino foi recepcionado com abraços
sufocantes demais para caberem na palavra sufoco, tantas balas e pirulitos que,
se a fortuna de Stevie Jobs fosse convertida para a medida em questão, este
sairia perdendo. Os avós brincaram de pega-pega, esconde-esconde, cobra cega,
momentos intercalados por fotos felizes no Facebook e Instagram.
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