LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
Os Monstros
Iris Franco
São Paulo/SP
— Não quero ir! Não quero! Tem um monstro lá!
Apesar dos protestos do menino cabelo tigela com leves ondinhas, cujas
lágrimas competiam entre si no cume do nariz adunco para saber qual delas
vencia a gravidade, aquele papel dizia que deveria ir. Uma palavra a qual jamais
procurou no dicionário, mas oscilava os ossos de tanto pavor: obedeça. Esse era
o som principal que os ouvidos da criança cujo nome tornara-se “filho de uma
mãe solteira” captava. Não adiantavam os berros, choros e portas batidas na
cara das pessoas, o desespero que desgastava sua existência era simplesmente
descartado por adultos com problemas importantes demais para serem
entendidos por ele.
A burocracia iniciada antes da ideia de haver um feto faz-se mais asfixiante
a medida que crescemos, ela se infiltra sem nenhuma vergonha em todos os
cantos, até nos mais íntimos.
Tinha o rosto magro, olhos castanhos os quais revelavam que a imensidão
dos seus desejos e sonhos era um monte de nada, um corpo o qual se fosse
chamado de esquelético receberia um grande elogio e uma voz que,
aparentemente, bradava para a solidão.
Todo sábado de manhã o leite corroía as entranhas e ninguém do núcleo
familiar primordial entendia o porquê daquele pão comido pela metade. Aquela
mistura de leite com pão meio corroído pelo desgosto revirava o estômago até se
transformar em um vômito forçosamente barrado pela cavidade bucal. Sempre
havia uma explicação advinda de um único motivo: manha.
E, notoriamente, tias e primos com a bola de cristal da obviedade já davam
o prognóstico: “quando crescer, vai melhorar”. Pessoas com a profundidade de
um pires e ideias tão consistentes quanto um dente de leão branco.
Apesar da pouca idade, ele sentia dor. Uma dor que de tanto doer, já não
doía mais. A dor era parte do menino, em algum ponto da vida dele ocorreu uma
fusão. E por mais que dissesse que passaria, era mentira. A Fluoxetina jamais
apaga o rasgo de um espírito. Sabia que por mais que tentasse se livrar, ela
sempre estaria lá, falando no ouvido dele e sempre a consolá-lo, de uma maneira
que os outros não faziam. Até que a dor construiu um muro, depois um castelo
136