LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
híbrido mencionado por seu prefaciador Roitman? A resposta seria um paradigma
oracional simples e sucinto proferido por Ariadne, famosa por sua linha: “Falar é
falar-se” (CORTÁZAR, 2001, p. 21).
Tendo, contudo, abordado o Minotauro e o seu labirinto, pensamos a
experiência da escrita alegórica do mito antropomórfico como fuga dos modelos
de repetição estética e reprodução inerte, mas uma atenção à palavra que fala de
si mesma, conforme Roland Barthes, “a demonstração prática da subversão do
discurso, por um trabalho de sapa levado a efeito em seu interior.” (2007, p. 56).
Sob a dramatização limite entre o clássico e o moderno do monstro em questão,
o texto “experimento” relaciona uma concepção polissêmica da figura mitológica
da Antiguidade com o hibridismo cultural característico do mundo
contemporâneo.
Enfim, esse é “o labirinto” reinventado por Júlio Cortázar, a língua pela
língua, linguagem acerca da linguagem, literatura por ela mesma. Ou, dito de
outro modo, conforme Costa Lima (1993, p.16), o “reconhecimento do eu” por si
próprio, embora, simultaneamente “acompanhado por um (eu) segundo” (o
narrador de Cortázar), evidenciando, enfim, uma voz transgressora, no que
tange às estâncias legitimadoras que lhe emprestaram orientação e sentido, em
reconhecimento da mistura de gêneros do pequeno volume Os reis (lançado em
1949), mas que lida hoje mostra-se muitíssimo atual.
Referências:
BULFINCH, Thomas. O livro da mitologia: história de deuses e heróis. 4ª ed.
Tradução de Luciano Alves Meira. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
CORTÁZAR, Júlio. Os reis. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wach. Rio de
Janeiro: Civilização Brasilieira, 2001.
LIMA, Luiz Costa. Limites da voz. Montaigne, Schlegel. Rio de Janeiro: Rocco,
1993.
BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 2007.
PIRANDELLO, Luiggi. O falecido Mattia Pascal; Seis personagens à procura de um
autor. Prefácio do autor. Tradução Maria da Silva et al. São Paulo: Abril Cultural,
1978.
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