LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
finalmente, o trágico e imanente conflito entre a vida que continuamente
se move e muda e a forma que, ao contrário, procura torná-la imutável.
(PIRANDELLO, 1978, p. 331)
Sendo assim, a poética de Cortázar (sua primeira obra aliás) se mostra um
experimento, uma ideia (ab)erração da tradição, uma metáfora do hibridismo
cultural e das misturas de gêneros tão presentes no panorama literário
compreendido como pós-moderno. A linguagem de Os reis (2001) é clássica, sua
forma dramática está repleta da musicalidade e lirismo, jogos semióticos, que
fazem da obra uma narrativa prenhe de significados. Nas palavras do prefaciador
da edição brasileira Ari Roitman (2001, p. 6), a escrita de Cortázar “dá a
impressão de constituir uma espécie de ‘ensaio geral’ para tudo que brotaria a
seguir da sua pena e criatividade fervilhantes”.
A aludida amálgama entre sentido e forma do texto cortaziano evoca no
tecido discursivo proporções de metalinguagem, porém, estas se revelam
estruturadas em discurso direto livre, tipicamente nos moldes de uma peça
teatral. Ademais, no quesito peripécia, ao confrontar-se com a criatura horrenda,
Teseu travará um diálogo com o Minotauro, mais próximo de um torneio
linguístico do que de uma narrativa épica: “Pergunta em vão. Nada sei de ti: isto
dá força à minha mão” (CORTÁZAR, 2001, p. 63). Tal procedimento
composicional combina então duas variáveis semânticas; uma, herdeira de
modelos clássicos dos “grandes feitos” heroicos, e outra, contrariamente, híbrida,
desconhecida e disforme: “Fala-se tanto de ti que és como uma vasta nuvem de
palavras, um jogo de espelhos, uma reiteração de fábula inapreensível. Tal é ao
menos a linguagem dos meus retóricos” (CORTÁZAR, 2001, p. 63-64).
Segundo Luiz Costa Lima (1993), essa dupla articulação significativa
apresenta-se como aqueles dois “limites da voz”, tratados em seu livro
homônimo — sobre as implicações da concepção moderna de literatura, a qual,
adaptada à nossa abordagem teórico-analítica, decerto reforçará um diálogo
tecido sobre a bifurcação do eu: a) um narrador circular “constituído pela
legitimação” da épica clássica, b) outro narrador provocador, cuja voz reflete o
“questionamento da construção intelectual proveniente do primado da
subjetividade” (p. 16).
Sucintamente, o duplo quadro esquemático se nos apresenta, por vezes,
orientado por uma “lei” antiga da cultura ocidental, por outras, mais próximo de
um poema metalinguístico, em que pesa o diálogo ressaltado, sobretudo, por seu
viés metaficcional. Assim, em resposta à fala do herói assassino, o Minotauro
replicará: “Deverias golpear com uma fórmula, uma oração: com outra fábula”
(CORTÁZAR, 2001, p. 64). Não seria este mesmo artifício ou “fórmula” o jogo
estratégico de Cortázar? Em outras palavras, com a fábula clássica não teria o
escritor belgo-argentino “enfabulado” uma poética nova, ou o tal experimento
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