LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019
O Minotauro
Erick Bernardes
São Gonçalo/RJ
Monstros, esses seres fabulosos estiveram sempre presentes nos clássicos
gregos e inegavelmente nutriram a nossa cultura. Na linguagem mitológica, tais
figuras imaginárias “eram seres de partes ou proporções sobrenaturais, em via
de regra encarados com horror, como possuindo imensa força e ferocidade, que
empregavam para perseguir e prejudicar os homens” (BULFINCH, 2006, p. 126).
O Minotauro é uma dessas criações híbridas, meio homem meio bicho, cabeça de
touro e corpo humano, ele vem percorrendo o imaginário da literatura ocidental
por séculos.
Assim, ao compor uma obra cujo eixo temático gira em torno do prisioneiro
do labirinto de Dédalo e seus personagens próximos, quem se aventure a
escrever algo que tenha a ver com a poética clássica, incorrerá,
consequentemente, no risco de reproduzir os moldes já cansados das narrativas
ditas tradicionais. Ora, se por um lado, o escritor insiste em tal empreitada,
consciente do perigo da repetição estética, por outro lado, ao fazê-lo ele tem a
chance de transgredir esses mesmos padrões compreendidos como “originais”.
Nesse viés desconstrutor, Júlio Cortázar compõe o livro Os reis (2001), uma
tragédia cuja estratégia composicional aponta justamente para as diferenças
possíveis no que concerne ao texto ficcional. Não é ocasional que a
monstruosidade que caracteriza o “ser” híbrido evocará o olhar crítico de
Cortázar acerca daquilo que se compreende em literatura por estética
contemporânea. Se parafrasearmos Luiggi Pirandello, certificaremos que o
Minotauro é ao mesmo tempo ideia e forma, conforme:
[...] personalidade de cada um vista em sua multiplicidade, conforme as
diferentes possibilidades do ser presentes em cada um de nós; e
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