Revista LiteraLivre 14ª edição | Page 129

LiteraLivre Vl. 3 - nº 14 – Mar./Abr. de 2019 O céu da Beleza Marcos Andrade Alves dos Santos Canaan/Trairi/CE O povo de Canaan contavam muitos mexericos sobre a Beleza. Diziam que seu colorau continha segredos de outros além e que era por isso que quando as mulheres temperavam a panela, eram seus sorrisos que davam sabor a comida – o colorau da Beleza desabrochava sorrisos nas mulheres e era com eles que elas temperavam. Isso só podia encantar quem comia, pois antes quem cozinhava tinha sido encantado. Mas a Beleza era mulher inventadeira. Até no Jogo do Bicho ela jogava e toda vez que apostava, era certeza que ganharia. Porém a Beleza só fazia isso quando tinha precisão, não era toda vez que o jogo lhe tirava a bacia de colorau da cabeça. O povo aproveitava para dizer que a Beleza só acertava o jogo porque fazia orações e os encantamentos lhe concediam o conhecimento dos bichos. A Beleza mangava destas histórias e dizia que não sabia porque as pessoas diziam isso dela e um dia me explicou muito bem como ela fazia para acertar o bicho que daria: – Eu faço assim quando quero jogar e é a coisa mais simples do mundo. Não sei porque o povo mexerica tudo que eu faço! Toda tarde eu intento de desinventar as coisas do céu. Você sabe que as nuvens vestem o céu e também arremedam as coisas da terra? Um dia encontrei uma velha que me disse que eu entenderia as coisas da terra olhando para o céu. E ela tinha razão. Só era preciso olhar com profundidade. Pois bem, toda vez que eu quero jogar nos bichos me sento no final da tarde, bem no descampado, antes da noite abrir sua boca e fico olhando para cima. Então o céu troca de roupas bem na minha frente, sem o menor pudor de mostrar as coisas da terra, as quais gosta de vestir. E são as coisas pelas quais espero. De repente um manto de nuvens se transforma num jacaré, num gato, numa vaca e quando num dá mais nada, então entendo 126