LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019
As carambolas têm um lugar especial nessa história. Na casa dela existia um
pé enorme. Acredito que por não receber poda todo ano, o pé da fruta, apesar de
ser muito alto, dava carambolas penduradas em galhos rentes ao chão.
Ainda hoje, ao colher carambolas na chácara do meu pai, Camilo, lembro-me
da Dona Rosa e penso que suas frutas eram mais doces, pois comíamos várias
sem fazer caretas.
Muitas vezes, Dona Rosa saía de sua casa, juntamente com Sônia e eu, para
visitar a sua neta. Essa morava em uma das casas que pertenciam à Vila
Magnesita. Andávamos aproximadamente 2 Km, só na ida.
No dia, em que Dona Rosa nos perguntava se queríamos acompanhá-la à
casa de sua neta “Nega”, que era tão branca quanto ela própria, sentíamos na
glória.
Dona Rosa andava no seu passo “tartaruga”, apoiada em sua bengala
marrom de cabo encurvado, com seus pés gordinhos enfiados nas “congas”.
Íamos pulando na frente, correndo e voltando, servindo às vezes de apoio para
ela ao subir no meio-fio.
Servimos de companhia à senhora idosa, várias vezes, porém lembro-me
mais de um passeio específico. Ao despedirmos da “Nega”, ela entregou à avó,
uma vasilha de vidro com doce de mamão. Fiquei fascinada com os desenhos,
em alto relevo, que realçavam sobre o verde do mamão. Dona Rosa, segurando
sua bengala, trazia o doce na outra mão. Quis carregar a vasilha para ela.
Temerosa da minha pouca idade, não permitiu. Em instantes, enfiou a bengala
em um buraco injusto. Foi ao chão e esparramou pedaços de cristal, tão bonitos,
por terra.
Quando regressávamos dos vários passeios, recebíamos “gorjeta”. Olha só,
que maldade! Éramos pagas por um prazer e o pior, aceitávamos de bom grado.
Tão logo deixávamos Dona Rosa em seu reduto, a “gorjeta” era transformada
em sorvete de morango ou creme, que saia da máquina em forma de cilindro.
Dona Rosa com suas mãos gorduchas, seus olhos claros, seus bolos
deliciosos, já passou pela história. Mas ainda hoje, sua doçura e suas carambolas
visitam minha mente.
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