LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019
levada à casa da tia Terezinha, minha cabeleireira, que mantinha meu visual
estilo “Joãozinho”. Ficava muito triste, com baixa estima, quando voltava de lá,
nessas ocasiões. Dava perfeitamente para entender a relação do Sansão com seu
cabelo. Até que um dia, fui chamada de “boy”, por um senhor, ao visitar o
trabalho do meu pai, na Feira dos Produtores. Indignada, pedi à mamãe que
deixasse o meu cabelo crescer. Ela permitiu, com a condição de que, daí para
frente, eu me encarregasse de cuidar dele sozinha.
Sônia e eu fazíamos muitas coisas juntas. Criamos nossas “filhas bonecas”,
cuidamos de nossos “lares”, no porão da loja que ficava debaixo da minha casa.
Preparávamos nossa comida, que variava entre laranjas picadas e tomates com
açúcar. Participávamos do coral da Dona Therezinha, na igreja. A senhora míope,
usava óculos de fundo de garrafa e era muito irritada. Tínhamos mais medo do
que prazer em cantar. Por trás, os meninos nos chamavam de “Curral da Dona
Therezinha”. Nos meses de maio, com vozes esganiçadas e asas de anjo,
coroávamos a Nossa Senhora.
Éramos comadres, cúmplices, amigas,
companheiras. Juramos amizade para sempre, que foi eterna na infância. A vida
se encarregou do resto. Hoje nos vemos raramente, mas o carinho na memória
não se apagou.
Dona Rosa faz parte dessa época. Ela, uma senhora muito branca e
gorducha, usava saias compridas e os cabelos como algodão, enrolados em um
coque denso no alto da cabeça.
Na ocasião, ela tinha uns oitenta anos. Morava na Rua Taperi, em um
barracão nos fundos da casa de seu filho, Sr. Geraldo.
Uma senhora extremamente dócil e carente que ansiava por companhia.
Naquele tempo, eu não avaliava a situação com essa clareza.
Sônia e eu éramos convidadas a ir à sua casa. Comíamos bolo com leite
quente, arroz-doce e biscoitos fritos. Depois, ela nos dava presentes: forrinhos
de mesa, feitos de crochê; copos de plástico pintados; santinhos de papel,
recebidos na igreja, e carambolas.
175