Revista LiteraLivre 13ª edição | Page 178

LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019 Tributo à Dona Rosa Clélia Jane Dutra Contagem/MG Passei a minha infância em uma casa às margens da Avenida Amazonas, em BH. Naquela época o movimento de veículos já era grande, principalmente porque não existiam outras vias de acesso ao centro de BH, Contagem e Betim. Em meio às freadas, atropelamentos, batidas de carros, buzinas e poeira, crescemos, brincamos, aprendemos a andar de bicicleta. A bicicleta era do Cleiton, somente uma Monark antiga, para oito filhos. Sete na verdade, pois a Lúcia jamais quis aprender. Duas rodas para catorze pernas. Em uma casa com muitos filhos e pouca mordomia, desde cedo aprendemos a compartilhar. Compartilhar significa repartir o pão. No caso, a partilha ia além do pão. Estendia-se ao patinete, à bicicleta, à coleção de contos dos irmãos Grimm. Os livros de capa dura, com cores variadas, foi aquisição do meu pai, assim como outros de aventuras. Ele pouco estudou, mas preparava um campo fértil onde floresceria, entre os filhos, paixão pelos livros. Com a bicicleta, cada um tinha direito a uma volta completa no passeio da Avenida Amazonas, ida e volta, que equivaleria a seis quarteirões. Às vezes, íamos dois de cada vez. Para ficar mais divertido, quem estava na “garupa”, esticava as pernas e pedalava. Não abandonei o gosto pela bicicleta até hoje, trinta e cinco anos depois. Como se fossem poucos os irmãos, aos domingos, alguns primos se agregavam às brincadeiras. Dentre eles, os gêmeos nada idênticos Edson e Edgard, o Carlinhos, o Paulinho, o Chico de Pará de Minas, a Cida da tia Ana e a Sônia, filha da tia Virgínia. A Sônia, com apenas um mês de diferença de mim, nasceu no dia 25 de novembro e eu 26 de dezembro; era minha companheira inseparável. Ela, loura de olhos verdes, eu, morena. Ambas secas de carne, com cabelos lisos e aparados bem próximo às orelhas, para dificultar o problema incansável dos piolhos. Por causa desses minúsculos e desprezíveis bichinhos, eu era sempre 174