Revista LiteraLivre 13ª edição | Page 176

LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019 Teresa não sabia Francine S. C. Camargo Vinhedo/SP Tinha as palmas das mãos lacrimejando de suor, mas não ousaria renunciar ao momento. Teresa sabia sim. Os olhos pálidos ao espelho denunciavam a destruição velada em seu corpo. O médico retornou já sem a resposta na ponta da língua, pois alternativa não havia e Teresa também já sabia. Mirou sua expressão ruiva com a visão meio turva e anteviu: não havia o que receitar, nem recitar. Era apenas mais uma poesia de vida que se extinguia. Pouco tempo quanto? Idealizo a formatura das crianças, a viagem de final de ano ou o breve café com as amigas, quis saber Teresa. Opção mais judiciosa seria a última, logo entendeu Teresa. Desceu, então, as escadas com os pés quase tortos de pavor, não do final em si, mas sim da imprevisão, da inevitabilidade de um dia ensolarado transformar-se em inconsciência, em juventude aniquilada. Espalhou esclarecimento, o tanto que pôde. Mas Teresa não mediu as palavras, não ajeitou antes o terreno para impor a má notícia. Estava ela tão doída que logo mais não teria clareza da dor alheia. E tristeza, teria? Teresa não sabia. Beatriz, a melhor amiga, segurou as mãos já enxutas de Teresa: – Vou ficar com você o quanto puder, todos os dias. Com os olhos ardidos de lágrimas, não conseguiam prognosticar um dia sem conversa, sem filosofias. – No final da semana, vamos nos reunir todos os amigos – insistiu Beatriz. – No final de semana não estarei mais aqui. 172