Revista LiteraLivre 13ª edição | Page 175

LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019 Terabytes chineses Paulo Ras Paranaguá/PR Terabytes chineses carregados de informações quase falsas russas fazem a Bolsa de Valores de Oslo recuar a níveis jamais vistos. Crianças paquistanesas aprendem inglês para trabalhar em empresas indianas de telemarketing, contratadas por míseros centavos pelas grandes corporações americanas. No Nepal, monges aprendem a fazer mantras binários para conquistar adeptos nas redes sociais. Na República Democrática do Congo, crianças que não sabem o que é facebook morrem de fome, adultos matam para comer qualquer coisa que se mova, enquanto a igreja sei lá o quê de Deus arranca migalhas vendendo a salvação em uma rua movimentada de Kinshasa. Deus não mora em favelas, grita o pastor colérico, enquanto Marie Mobutu come um pedaço de milho carunchado que ela roubou da boca de um cavalo doente, ela mal sabe, mas será vendida pela mãe antes de completar onze anos para o pastor insano, apreciador de carnes ainda puras. Há tempos que extirpam o coração. Preciso de um novo. Minhas palavras ainda estão madrugadoras para estes tempos insanos. O recorte do avesso sempre é o contrário do direito, por isso sou canhoto, ou, talvez, apenas para ser do contra, e reavivar peregrinações nos meus papéis passados a limpo. Porém sempre é tempo de acordar dissabores, por isso lerei um livro de Pessoa, apenas para saber o quanto o tédio pode ser tratado como genialidade. Meus fakes literários e literais são mais interessantes que Reis, Caeiro e Campos. Um deles tem vagina e seios exuberantes, e trepa com meu alter ego nos tempos em que sou abusado pelas palavras. Olho para o relógio. Oito e meia da noite. Acordo para dentro, refarei dois poemas e um conto que nunca escrevi. Não vou complicar. Vou beber um vinho, fumar um cigarro, tomar um banho, desligar as luzes, acender uma vela, queimar um incenso, deslizar um tempo à toa. Antes de sorrir, farei uma oração ecumênica por Marie, mesmo que ela não saiba. Quero salvá-la de mim mesmo, da minha mente insana de prescrever eternidades, da minha mania de divindade cruel, criadora, parideira e assassina de tantas Maries abstratas, que sempre renascem quando abro meus olhos de piscar possibilidades. 171