LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019
procurou o caminho mais curto para longe dali. Aquela cena já estava lhe dando
náuseas.
Dentro do carro, e quando já aquecido, decidiu sobre o jantar: passados alguns
minutos percebendo que nenhum gato se escondia em seu motor engatou
marcha ré e saiu do estacionamento. A pizza chegou fria, mas ele comeu-a
mesmo assim e se preparou para dormir. A cena em frente à loja já fora
esquecida – ele se deitou cedo e dormiu um sono digno e tranquilo. Aquela foi a
madrugada mais fria do ano.
Mesmo prometendo a si mesmo que ficaria na cama até mais tarde não
conseguiu se conter. Levantou-se e preparou um café forte, o único tipo de café
que deveria existir. Ele ri consigo por aquela crítica feita em sua cozinha a
ninguém em específico. Liga a televisão sem se importar com o que estava
passando: não gostava da casa silenciosa como estava e a tv só faria fundo.
Ouve a âncora do jornal da manhã falando sobre os lugares castigados pela
geada. Algumas plantações perdidas, aquilo era ruim para a economia, pensou
ele, mas logo o barulho do micro-ondas o distraiu, sua pizza amanhecida estava
pronta. Mais uma notícia sobre possíveis bonecos de neve em um país tropical.
Aparentemente eles não tinham nada para falar além do clima, o jornal inteiro
parecia uma conversa forçada de elevador.
A próxima notícia tirou sua atenção da cebola em cima da pizza que ele
claramente avisou a atendente que não queria: uma pequena chamada sobre o
impacto do frio nas pessoas mais carentes. Com uma expressão de pesar no
rosto, a jornalista informava a morte de dois moradores de rua que não
aguentaram o frio daquela madrugada. Os corpos seriam recolhidos e medidas
seriam tomadas. Sua expressão passou do pesar ao entusiasmo em um piscar de
olhos, quando começou a anunciar os próximos jogos que aconteceriam na Copa
do Mundo, dando um ponto final na conversa sobre o clima.
Ele se pegou segurando sua xícara de café que, a essa altura, já tinha perdido
todo o calor. O modo como deram mais ênfase nas plantações do que a morte
daquelas pessoas o incomodou. Ele sabia o porquê do incômodo, soube no
momento em que viu o cobertor surrado jogado na calçada enquanto uma equipe
colocava o velho em um saco plástico. Algumas pessoas assistiam enquanto
outras estavam ali só a trabalho: aquela seria uma notícia de dois segundos no
jornal da manhã. Ele imaginou se o homem chegou a pegar o dinheiro:
provavelmente nem notou a nota que ele lhe deu.
Ele soltou a xícara em cima da pia, o sentimento de culpa o consumiu o dia todo
e o outro também. Na volta ao trabalho evitou olhar para as calçadas, sentia-se
responsável pela morte daquele homem. Tentou se convencer de que muitas
pessoas haviam passado por ali aquela noite. Muitas tinham visto o velho
tremendo de frio e, assim como, ele muitas pessoas passaram tapando as
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