Revista LiteraLivre 13ª edição | Page 150

LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019 Refexo Angélica Neneve Cascavel/PR O cheiro de inverno enche o escritório. Na verdade, é cheiro de roupas de frio a muito guardadas e café, mas ele gosta de pensar que é o cheiro do inverno que se instalou ali. É julho e os jornais fazem previsões sobre a madrugada mais fria do ano e que por acaso seria aquela. Ainda há trabalho a se fazer quando o tic- tac do relógio finalmente bate. É hora de ir embora. No elevador ele ouve os planos dos colegas animados com a noite de sexta, limita-se a cumprimentá-los e recusa educadamente os convites lançados a ele: prometeu que em uma próxima, talvez – hoje não. As portas do elevador se abrem e ele rapidamente sente a brisa gelada que vem de fora. Começa a levar a sério o que o cara em frente a uma tela verde falava sobre frentes frias vindas do sul. Instintivamente leva as mãos a boca e tenta aquecê-las com um ou dois assopros. Fecha um pouco mais o velho paletó cinza escuro que está vestindo, e imagina que teria sido melhor ter colocado mais uma blusa por baixo. Passa apressado pela porta giratória. Foi um dia longo e estressante como todos os outros naquele banco: ele só quer ir para casa. Enquanto caminha com pressa pela calçada já começa a imaginar o que terá para o jantar. Uma pizza seria uma boa pedida. Ou talvez passasse em algum restaurante no caminho para comer ‘comida de verdade’ para variar. Preso em seu devaneio gastronômico quase tropeça em um homem deitado em frente a uma loja de roupas. Os manequins em suas jaquetas de couro contrastando com os farrapos que cobriam o corpo quase esquelético do velho. Do cobertor sujo com o qual o homem se enrolava emanava um cheiro forte de urina e álcool. Imediatamente ele se lembra que odeia essa época do ano por causa dos gatos entrando em motores para se aquecer e dos moradores de rua se aglomerando em frente as lojas que oferecem um mínimo de proteção contra os ventos cortantes do inverno: ele detestava ter de ligar o carro e esperar a eventual saída de um gato de dentro do motor, odiava pedintes de todas as formas – seu pai lhe ensinou assim. Seu pai era um homem sábio e bem-sucedido e, segundo sua filosofia, todos eram capazes de fazer qualquer coisa. O fracasso das pessoas, então, era problema delas e de mais ninguém. Antes de continuar seu caminho, sentiu a culpa inconsciente que detestava sentir. Remexeu nos bolsos um pouco até encontrar uma nota, não prestou atenção ao valor, apenas a atirou ao mendigo que tremia na calçada, virou-se rapidamente e 146