LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019
narinas por conta do mal cheiro. Ele, pelo menos, deixou alguns trocados para o
homem: não devia ficar se culpando – decidiu culpar as pessoas que passaram
por ali e não deram nem mesmo uma moeda àquela criatura. É, a culpa era delas
– ele tinha feito a parte dele, não tinha?
A culpa também era do governo: esse problema, assim como saúde, educação e
segurança, é trabalho do governo, afinal. Ele já pagava seus impostos, não era
trabalho dele se preocupar com moradores de rua.
Sem falar que a culpa era do próprio homem: ele desistiu, deixou de tentar
vencer na vida. É, a culpa era do próprio velho, do governo e da sociedade, não
dele. Ele ajudou, fez tudo que estava ao seu alcance, não fez? Sim, ele fez.
No elevador, a caminho do escritório, ele ouve duas colegas falando sobre o
ocorrido. Uma delas está se sentindo culpada por ter passado pelo mendigo e
não ter oferecido sua jaqueta.
— Era minha jaqueta preferida! – Ela diz como se se defendesse.
Era o que ele precisava ouvir: Ele estava certo, não era culpa sua: era dela e de
todos os outros.
No final do dia, e enquanto se dirige a seu carro, ele encara a calçada onde dois
dias antes jazia um corpo gelado: não sente mais culpa, está tudo bem
novamente. Ele liga o motor e da marcha ré, mas ouve um baque e se assusta:
desliga o carro imediatamente e sai para ver o que era – o corpo de um gato
amarelo o faz lembrar que devia ter esperado um pouco antes de sair com o
carro. Mas como ele poderia saber? Aquela noite nem estava tão fria... Sente
culpa pelo gato como sentiu pelo homem da calçada, mas o gato foi realmente
culpa dele, ele imagina: vai demorar mais para esquecer.
É julho, não que ele realmente soubesse em que mês estava: a muito desistiu de
contar os dias. O emprego perdido, a morte da esposa e a rejeição da família o
deixaram completamente sem esperança. Mas está muito frio, e ele ainda pode
ver as bandeirinhas de festa junina que estão penduradas em quase todos os
lugares já há algum tempo, então deduz ser julho.
Ele pega o dinheiro arrecadado durante o dia e vai até um mercadinho ali perto.
O fiscal o segue por todos os corredores… ele conta as moedas constrangido:
nunca fica mais fácil – o dinheiro é suficiente para uma garrafa. Ele está com
fome, mas sabe que o frio vai ser mais difícil de aguentar do que a dor no
estômago. Então pega a garrafa passa pelo caixa e sai do mercado ouvindo as
pessoas que estavam ali comentando sobre sua aparência, cheiro e preferência
pela bebida. Ele já esteve daquele lado então entende como elas pensam: elas
nunca estiveram do lado em que ele está e é por isso pensam assim.
Dirige-se à loja próxima, abriga-se do vento sob sua marquise, se enrola no
cobertor e toma alguns goles da bebida: sente a garganta queimar e deseja que
consiga dormir logo. Algumas horas se passam, porém, e a bebida não foi
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